Mostrando postagens com marcador 6edição. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 6edição. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Entrevista com Viviane Mosé

Por Rogério Fernandes Lemes
Foto: Christian Gal
Criticartes: Professora Viviane Mosé sou Rogério Fernandes, o Editor-Chefe da Revista Criticartes e, em nome de nossa equipe e de nossos leitores, agradeço a gentileza por conceder esta entrevista. A senhora trata de alguns conceitos como poesia, sofrimento, violência e Nietzsche. Falaremos sobre cada um deles. Primeiramente a poesia. É possível uma definição poética sobre a poesia? Se for isso possível, poderia o ser humano tornar-se mais divinizado pela ação da poesia?

Viviane Mosé: A poesia é o exercício da síntese, não uma síntese de palavras, mas uma síntese de sentido e valor, o que significa uma busca pelo que realmente importa. Dizer palavras bonitas ou dizer um texto bonito isso não é poesia. Poesia é atingir a vida pura e bruta, sem subterfúgios, e a vida nem sempre é bela. Então é um exercício de coragem. Precisamos exercer a nossa coragem de lidar com o que é grandioso, inexplicável, como é a vida. Mas preferimos não pensar, não sentir, não saber, não ver.   A arte faz com que as pessoas consigam ter contato com a parte mais difícil da vida e também com as mais belas, porque a beleza e a alegria também nos assustam por serem grandiosas. A poesia nos tira da mediocridade.

Criticartes: Qual a relação e a importância, no seu entender, da filosofia enquanto um instrumento de elevação metafísico e suprassensível com a poesia e sua efetiva atuação na compreensão ou aceitação do sofrimento humano?

Viviane Mosé: A filosofia e a poesia, assim como a arte de modo geral, são ferramentas, instrumentos, modos de lidar com o sofrimento, com a solidão, com a condição da existência, com a finitude, com a perda, não como aceitação ou conformismo, mas como uma nova ação, ou como inovação. Diante da dor podemos nos vitimizar, ou nos conformar, mas podemos ainda nos potencializar, quer dizer, podemos ficar mais fortes. A arte potencializa o humano, torna a vida ainda melhor. É como se o sofrimento que nos derruba tanto, quando enfrentado e vivido esteticamente com consciência, com filosofia, poesia, vida, esse sofrimento pudesse tornar a vida mais intensa. É nesse sentido a frase do Nietzsche “o que não me mata, me fortalece”.

Criticartes: Como Viviane Mosé percebe e compreende a literatura brasileira em uma época com forte apelo ao politicamente correto? As manifestações populares regionais seriam forçadas a uma reconfiguração cultural para não incorrerem em crime entendido como ataque à dignidade da pessoa humana?

Viviane Mosé: O politicamente correto é uma caretice, uma besteira, uma tentativa de controle, um modo de pasteurização das ações. Não é isso viver. É preciso ter bom senso e o bom senso significa avaliar as coisas de modos diferentes considerando a pluralidade. Então, o politicamente correto gera, na verdade, polícias ou pessoas que se dizem os guardiões do meio ambiente ou da moral, enfim, o politicamente correto não dá. Um exemplo disso foi o absurdo julgamento porque passou Monteiro Lobato; por falta de considerar o contexto buscaram crucificar um dos maiores responsáveis por incentivar a leitura infantil no Brasil. Não seria melhor trazer o tema para os dias atuais e ressignifica-lo? Ou seguiremos construindo borrachas mágicas, ilusórias, para apagar nossa história?

Criticartes: O sofrimento é realmente bom? Ou seria apenas um subterfúgio requintado e poético pensar assim?

Viviane Mosé: O sofrimento não é bom nem ruim. O sofrimento é próprio da vida. O que define o sofrimento é o fato não só de nascermos e morrermos, mas de termos consciência disso. Enquanto vivemos sabemos que a vida é provisória. Essa provisoriedade nos faz construir uma cultura que quer nos vender a sensação de permanência, de estabilidade. Então, essa ilusão, essa tentativa de fingir que a vida não é o que de fato é, instável, inconstante e por isso também belíssima, mas, imprevisível e necessariamente finita, é o que mais nos faz sofrer. Mas esse sofrimento pode ser o impulso para nos fazer viver mais e melhor, é o que Nietzsche afirma: todas as ilusões para tentar nos livrar da vida só nos tornam impotente, o que só aumenta nossa dor de existir. Portanto o sofrimento não é bom nem ruim, é um fato, sendo um fato deve ser encarado de frente.

Criticartes: Sua compreensão diante de um problema difere, obviamente, do grande público adepto do culto à dor. Ao questionar o sofrimento sobre quais benefícios trará para sua vida, vida esta compreendida como um kit complexo e que torna, cada um de nós, como portadores do infinito, eu pergunto: o que falta para que as pessoas compreendam isso e transformem em senso comum para que sofram um pouco menos?

Viviane Mosé: Você pergunta o que falta para as pessoas perceberem que o sofrimento pode ser importante para as suas vidas? É só elas olharem para suas vidas como ela está agora que elas lutam tanto contra o sofrimento. Então, as pessoas que mais lutam contra o sofrimento são as pessoas que mais sofrem e, para perceber isso, é só fazer uma leitura diária do seu cotidiano e perceber que ter curtidas nas redes sociais, ter roupas, ter objetos ou fazer viagens não faz ninguém viver bem. Viver bem é um processo interno de habitar o próprio corpo e viver o presente, o instante, a vida como ela é.

Criticartes: A senhora concorda que a solidão é a maior tragédia humana? E os poetas? Seriam dotados de poderes capazes de ajudar as pessoas na superação e no enfrentamento de seus medos?

Viviane Mosé: Quanto à solidão eu penso exatamente o contrário, a solidão é espaço de fortalecimento, de reagrupamento das forças; é da solidão que nasce a poesia, tão cara, tão importante, tão valorosa. Então na verdade a poesia, para mim, é um instante poético; é o momento em que eu me sinto vivendo o presente. Neste momento, que é extremamente agradável, as palavras ficam abraçadas umas às outras como se todos os sentidos me abordassem e eu pudesse brincar com tudo aquilo. A minha busca é por um instante poético e é, esse instante, que me dá essa leveza com as palavras, essa fluidez. O que me leva a um instante poético é um processo de livramento, o momento em que eu me livro do que não importa, do que eu acho que importa, mas não importa; do que eu carrego como subterfúgio, porque faz parte do processo ter subterfúgios, mas, neste momento eu me livro desses subterfúgios e me encontro, de fato, com o que eu chamo da vida pura e bruta. E isso é muito agradável para mim porque  daí nasce a poesia. Eu só posso encontrar isso vivendo a solidão, então solidão, para mim, é uma alegria. Atualmente eu fico contando os minutos para ficar sozinha, e amo ficar sozinha e imagino que vou ficar feliz velha vivendo a solidão. Velhice que já está chegando para mim. Como enfrentar a solidão? Não há o que enfrentar na solidão. O que há para enfrentar é a condição da existência. Essa condição é dura e feliz porque se eu nasci e vou morrer, se minha vida é um intervalo entre uma coisa e outra é preciso valorizar cada minuto desse tempo. Ele é único. O porquê eu estou aqui? Para onde eu vou? Provavelmente eu não vou descobrir, mas será que importa descobrir? Talvez importe mais viver. Eu vou viver essa vida que me foi dada com dignidade em cada minuto, tanto na alegria quanto no sofrimento, porque isso é temporário, não é? Então eu quero viver o que eu tenho para viver. E se essa é uma postura, as coisas se encaixam melhor, o desencaixe talvez seja muito mais produtor de sofrimento do que o que a gente atribui para o sofrimento.

Criticartes: Em um de seus poemas há uma receita para “limpar” palavras sujas. E para as palavras violentas como ódio, crueldade, desprezo, indiferença e soberba? Existe uma receita para nos protegermos delas?

Viviane Mosé: Quando você diz que palavras como ódio, crueldade, desespero, indiferença e soberba são violentas, você está sujando essas palavras. As palavras são molduras vazadas, o sentido é sempre móvel. Então eu vou te dar um exemplo: a palavra amor, talvez você a considere uma bela palavra. Mas não. Eu, por exemplo, posso dizer para o meu filho “eu estou fazendo isso por amor”. Mas, na verdade, o que eu estou dizendo com ‘amor’ pode ser visto por ele como crueldade. Então, qual é a melhor palavra? A palavra amor é uma palavra melhor? Não. A palavra amor não diz nada. O que diz é o acordo estabelecido entre quem fala e quem ouve naquele determinado momento. Então não tem palavra violenta, não tem palavra feia, não tem palavra torta só tem palavra suja, palavra suja é quando ela está impregnada de sentido. A gente tem que reagrupar o poder de leveza das palavras para elas poderem voltar a comunicar.

Criticartes: Como a senhora percebe a influência de Nietzsche no pensamento poético pós-moderno? Existe essa influência?

Viviane Mosé: Nietzsche é um dos autores mais lidos no contemporâneo, mais citados em rede social. Ele é bastante marcante entre jovens, entre adultos e velhos, enfim, e o porquê disso? A base do pensamento de Nietzsche é uma leitura da história da civilização. Ele começa com os gregos e chega até o contemporâneo. Na verdade, ele chega até o final do século XIX quando enlouqueceu e parou de escrever, mas a base da análise do Nietzsche é que a civilização estava se movendo por valores ilusórios. É como se a civilização quisesse acabar com o sofrimento ou mudar o rumo da natureza, e isso é impossível. Então, a história da civilização, para Nietzsche, é uma contra natureza; luta contra a natureza, mas a natureza é muito maior do que o homem e do que a cultura humana e, em algum momento, esse choque vai fazer com que as estruturas do Ocidente se desfaçam em uma crise de valores, em uma mudança, inclusive da natureza.  Nietzsche previu esse processo não tanto ambiental, porque não é a questão dele, ele fala muito da exaustão de um modelo de cultura que é baseado na exploração da natureza. Isso sem dúvida nenhuma. Ele acha que esse modelo vai se exaurir não por uma questão ambiental, mas por uma questão civilizatória. O homem não consegue controlar a vida e essa falta de controle vai cada vez mais aparecer e desfazer a base do pensamento ocidental. Então é como se ele tivesse dizendo que nós estamos apontando para um outro momento da cultura, que é refazer o conceito de ser humano e de vida; o homem parar de lutar contra a vida e dar as mãos a ela. É nesse sentido que eu valorizo o sofrimento. Não chamar o sofrimento para si ou querer o sofrimento, mas compor com o sofrimento, potencializando a vida e produzindo arte a partir daí, quer dizer,  potencializar a vida a partir do sofrimento e não tentar acabar com o sofrimento, por exemplo, comprando e usando medicação psiquiátrica. É nesse sentido que o Nietzsche coloca a questão do sofrimento.

Criticartes: A Revista Criticartes foi pensada como ponto de encontro entre autores e leitores oferecendo, gratuitamente, conteúdo de qualidade para o fortalecimento da leitura. Ler mais para ser um “portador do infinito”. Acredita-se que esse objetivo é alcançado em cada edição. Qual a sua mensagem de incentivo aos novos poetas e escritores brasileiros que acompanham seu trabalho?

Viviane Mosé: Claro que uma revista que traga literatura, que fale de literatura é importante, sem dúvida nenhuma. É um espaço de troca acessível a todo mundo pela internet, enfim, é superimportante. A leitura é valiosa como exercício de interiorização, de pensamento, de reflexão, de coragem e de solidão. A leitura é uma excelente parceria para a solidão, assim como a música, assim como o cinema e a pintura. Minha mensagem de incentivo aos escritores: escrevam. Escrevam sempre. Leiam, escrevam, se manifestem. A poesia é um bálsamo, um presente para quem tem sensibilidade para senti-la mesmo que não escreva, e, para quem escreve, ainda mais.

Criticartes: Em nome da Revista Criticartes, de seus autores colaboradores e leitores no Brasil e em onze países, agradeço por sua atenção e gentileza em conceder-me esta importante entrevista. Sinta-se à vontade para suas considerações finais.

Viviane Mosé: Quero agradecer o espaço dessa entrevista e espero que essas questões sejam cada vez mais discutidas, especialmente entre escritores e leitores de poesia.

OBRAS DE VIVIANE MOSÉ
Poesia
Toda Palavra, (2008)
Pensamento chão, (2007)
Desato, (2006)
Receita para lavar palavra suja, (2004)
Escritos, (1990)
Imagem Escrita, (1999);
7 + 1, Francisco Alves (1997).
Filosofia e Psicanalise
A Escola e os Desafios Contemporâneos, (2013)
O Homem que Sabe, (2011)
A Resistência Tapuia na Capitania do Espírito Santo? (2009)
Nietzsche e a grande política da linguagem, (2005)
Beleza, feiúra e psicanálise, (2004)
Stela do Patrocínio - Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, (2002)
Assim Falou Nietzsche, (1999)
Imagem: Divulgação da Autora.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Clayton Silva e seu estilo Figurativo Moderno

Por Zita Ferreira Braga - Diário de Notícias - Lisboa, Portugal

“minhas telas todas são óleo sobre tela texturizada”

Personagens enigmáticos, muitas vezes cômicos, evocam as cortes reais do passado com um toque contemporâneo. Através da visão única do artista Clayton Silva, as pinturas expressam histórias fantásticas de um aparente futuro medieval. Vestuários e ambientes suntuosos transportam o observador a este universo inquietante, recheado de mistério e extravagância. Todos os elementos completam-se, juntos criam um ‘lugar’ e a realidade é transfigurada.
Na contemporaneidade do trabalho de Clayton Silva destacam-se elementos circenses através da figura do palhaço, o bobo da corte, uma figura frequentemente subversiva e transgressora de regras e padrões preestabelecidos. As expressões dos palhaços medievais de Clayton Silva fazem o observador pensar; reforçam a mensagem do artista sobre a sua percepção e interpretação da vida.
As expressões faciais de seus personagens estão em constante mudança durante a comunicação com o observador, deturpam a verdade, examinando-as profundamente revelam um número ilimitado de emoções. As narrativas cuidadosamente concebidas servem para tornar a condição humana transparente.
Nessa futura Idade Média, o artista goza de total liberdade, brinca com a ilusão do real dentro de um universo ficcional. Clayton Silva nasceu em 20 de novembro de 1973 em Jundiaí, Brasil. Com Mais de 40 exposições no currículo sendo que três delas internacionais. Lisboa, Buenos Aires e Moscou. Obras vendidas a colecionadores de Portugal, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Argentina, Rússia, Estados Unidos e Canada.

Projeto "As riquezas do meu lar"

Aprendendo com as “lentes da alma”

O projeto “AS RIQUEZAS DO MEU LAR” foi desenvolvido na aldeia indígena de Panambizinho no Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil. Pelas professoras Bianca Marafiga e Rosane Costa. Seu maior objetivo é o de proporcionar momentos únicos, a partir de diferentes ângulos e perspectivas sobre as riquezas presente no cotidiano e nos lares dos alunos ameríndios.
Riquezas estas repletas de elementos sociais, ambientais e culturais. Nas áreas indígenas esta importância reforça-se, considerando-se a forte relação que esses povos, especialmente os Guarani-Kaiowá, possuem com a terra e com a natureza. Há uma importância dualista entre espaço físico e espaço das relações socioculturais e cosmológicas denominada por esse povo como tekohá. (PEREIRA, 2004).
O projeto proporcionou aos estudantes momentos de registros de seus lares, onde eles próprios definiram seus conceitos de riquezas contidas em seus espaços diários. Um desafio inspirador. Com uma máquina fotográfica ou celulares com câmaras em suas mãos, com a total liberdade de registrar o que viram e sentiram, suas fotos são surpreendentes.
As imagens participantes no concurso foram utilizadas pelos professores no desenvolvimento de atividades dentro do planejamento nas mais diversas áreas, contribuindo para uma dinamização do ensino e aprendizagem dos conteúdos e da vida. Possibilitou aos alunos produzirem mais que uma foto, mas obras de arte inseridas diante de suas realidades.
Para a professora Bianca Marafiga, uma das coordenadoras do Projeto, a introdução da fotografia como material didático e metodológico foi fundamental para o aprendizado nos anos iniciais do Ensino Fundamental. “A utilização deste recurso proporcionou uma atividade com maior senso crítico sobre a realidade que os envolvem. O uso da linguagem fotográfica nas escolas é uma grande ferramenta de auxílio na aprendizagem dos alunos de diferentes anos e programas, contribuindo para o desenvolvimento da cultura visual” avaliou.

A Mário Carabajal

Joabnascimento
Camocim, CE, Brasil
@: joaobnascimento55@gmail.com

No ano de cinquenta e oito
Oriundo de um amado coito
Nascia esse fruto de inteligência
Proveniente de um amor igual a dropes
Olegário e Manuela Cacilda Lopes
Vinha ao mundo esse ser de pura inocência.

Surgido nos Pampas gaúchos
Sem muito conforto e nem luxo
De uma matéria sem igual
Para iluminar a ciência
Com seus ideais e sapiência
Deus nos envia Mário Carabajal.

Desde criança tinha o dom
De artista já trazia o tom
Das notas certeiras musicais
Aos quatro anos de idade
Parecendo já ter maioridade
Já vislumbrava os seus ideais.

Nos gramados desfilava afinal
Entre Grêmio e Internacional
Deu os seus primeiros pontapés
Ganhando alguns campeonatos
Já era um artista nato
Esse nobre gaúcho de Bagé.

Assistiu de pé na sacada
Em frente da sua morada
O forte Golpe Militar
Soldados entrincheirados
Com armas bem preparados
Dispostos a lutar.

No ano em que a lua foi visitada
A esfera lunar conquistada
Seu pai Deus o levou
Na Escola Dom Bosco
Num ato um tanto tosco
Sua mãe o internou.

No ano de setenta e três
Chegava a sua vez
Assim veio a trabalhar
No grupo de Paulo Pimentel
Desenvolveu um grande papel
Ao poder secretariar.

Nas indústrias Parmazon
Ele também deu o tom
Atuou como secretário
Com bastante determinação
Luta e organização
Ganhando seus honorários.

Acompanhou Carlos Carabajal
Baterista e empresário musical
Tocando o seu bangô
“The Brazilian Band Supreemes”
Foi a hélice do seu leme
Pelo o Brasil viajou.

Depois da vida de artista
Fez exame na Brigada Paraquedista
Na cidade do Rio de Janeiro
Ao Exército bem serviu
Depois tranquilo desistiu
Apesar de passar no lugar primeiro.

Conheceu a pobreza e a riqueza
No Bairro de Santa Tereza
E na Favela da Rocinha
Desistiu da carreira militar
Por não poder concordar
Com algumas picuinhas.

Depois de ser bancário
Gerente intermediário
Com os irmãos associou
Empresa de publicidade
Central de cobrança na cidade
Para Roraima imigrou.

Ao se formar ingressou
Na função de professor
Como funcionário federal
Imóveis e contabilidade
Exercendo essas habilidades
Trabalhou também afinal.

Defensor da sua cultura
Fomentou com bravura
A criação de um CTG
Com chula, malambo e poesia.
Danças gaúchas ele cria
A invernada gaúcha faz crescer.

Licenciado em Educação Física
Especializa-se em Pesquisa Científica
Mas consegue num breve dia
Com tese no seu doutorado
Pela Dra. Kátia foi bem orientado
Doutorando em cinesiologia.

Forma-se em Psicanálise Clínica
Aperfeiçoa sua técnica
Concluindo o seu mestrado
Psicomaturação da Consciência Humana
Tese que logo emana
Para seu pós-doutorado.

Tentou ser deputado
Mas Deus compenetrado
Não permitiu tal fato
A ele deu outras missões
Importantes decisões
Na vida deste artista nato.

Após exercer cargos importantes
Mário não se cansou um instante
Em criar as academias escolares
Fundou a Academia Roraimense de Letras
Com sabedoria ele penetra
Na edição de seus vários exemplares.

Academia de Letras do Brasil
Fundada de forma viril
Por esse grande imortal
Com secção na Suíça
Hoje é fonte de cobiça
No âmbito intelectual.

Autor de inúmeros livros
Esse imortal, ainda vivo.
Mantém uma luta constante
Contra a corrupção e a fome
A injustiça que nos consome
A liberdade de imprensa falante.

Pai de Emannuely e Karine
Esse ser ainda exprime
Seu amor familiar
Ao lado da Doutora Dinalva
Seu amor que o acalma
Toda hora a lhe amar.

Oferto esse humilde cordel
Ao nobre menestrel
Grande Mestre Imortal
Com palavras simples explico
Sua vida em versos dedico
Ao ilustre Mário Carabajal.

Polaroide

Danielle Andrade
Itabaiana, SE, Brasil
@: dani-andrade-se@hotmail.com

Que coisa boa é a fotografia! Não me refiro às fotos de hoje em dia, que são digitais, raramente impressas. Gosto mesmo é daquelas fotos impressas em papel, fotos palpáveis.  Aquelas que são reveladas. Acho que realmente elas revelam algo! Aquelas fotos de quando era criança, que são guardadas na casa de parentes. 
Quando era criança, uma das minhas tias tinha uma polaroide. Essa máquina era, para nós, um evento. Apenas ela, minha tia, a tinha. Pensem na alegria que sentíamos quando ela vinha nos visitar no interior, trazendo consigo a polaroide; minha tia não saia sem ela. Tia Vera adora fotos! 
Lembro-me, com saudade e alegria, de certo dia, devia ter uns cinco, seis anos, minha tia veio à casa da minha avó que, como toda casa de avó, vivia repleta de netos, uma neta era fixa, os outros passageiros, uns demoravam mais, outros nem tanto. Nesse dia, que me recordo, ela trouxe consigo sua polaroide; para nós, era uma grande novidade. A foto saia na hora! Uma foto pequenininha! Uma belezura para a imaginação da criançada. Vejam só que moderno! 
Como toda família, tiravam fotos das crianças para recordar e acompanhar o crescimento delas. Nesse dia, já era meio da tarde, Tia Vera já estava pronta para ir embora para a capital, quando sugeriu a foto! Estávamos todos desarrumados; crianças que tinham brincado o dia inteiro. Mas não podíamos deixar de tirar a foto! 
Na polaroide!! Minha tia mandou que ficássemos em frente à casa de minha avó. Posicionamo-nos em frente à parede da casa, já íamos a foto, quando minha prima (mais velha que eu) percebeu meus cabelos desarrumados, desgrenhados de criança traquina que era! Ela teve a brilhante ideia de colocar em meu cabelo uma flor artificial (moda da época; colocou a bendita flor em minha cabeça, segundo ela, para arrumar; eu adorei a ideia, minha prima era uma gênia, e muito querida também. Aquele momento foi eternizado ali, naquela simples imagem emitida pela maquinazinha tão legal). 
As fotos têm esse poder, o de capturar o momento e eternizá-lo. Ainda temos essa foto; cerca de quatro a cinco crianças encostadas a uma parede com a pintura decadente, um portãozinho aberto, uma adolescente e uma criancinha negra com olhar desconfiado e vívido, com os cabelos para cima, um emaranhado de cabelo e uma rosa vermelha no meio. Meus primos e irmãos riem quando veem a foto. E ficou realmente hilária! É, sem dúvida, das fotos que mais gosto. E aquele momento é vivo até hoje.

Bazófias de um cantador pai dégua o maior cordel do mundo

Beto Brito
Rabequeiro, cordelista, cantor e compositor brasileiro
João Pessoa, PB, Brasil
@: betobritobb@terra.com.br

Mangaio, feira e artista
O céu bonito e azul
Cantiga de grilo e peru
Violeiro repentista
Calça e camisa de lista
Um tirador de reisado
Um sanfoneiro arretado
Um moleque vendedor
Açude com sangrador
Um velho todo enxerido
Eita Nordeste querido
Nordeste dos meus amor

Um be-a-bá soletrado
Um pé de mandacaru
Torresmo, cana e umbu
Currulepo pro roçado
Cavalo e boi amarrado
Cumbuca e pé de coentro
A mãe chamando pra dentro
A menina que chorou
Passarim que se assustou
Por causa dum estampido
Eita Nordeste querido
Nordeste dos meus amor

Um cego pedindo esmola
Histórias de Lampião
Conversa em pé de balcão
Gonzaga na radiola
Tareco e pão, mariola
Sassarico de galinha
Parede-meia, vizinha
Riachinho que secou
O vestido que voou
Num redemunho atrevido
Eita Nordeste querido
Nordeste dos meus amor

As estradinhas de barro
Fumaça na chaminé
O tô fraco do guiné
Papel de enrolar cigarro
Buchuda, corda e carro
O azuzim das montanhas
O cheirinho das castanhas
Lorotas de caçador
Matuto assobiador
Um besta e oito sabido
Eita Nordeste querido
Nordeste dos meus amor

Água dormida de pote
A pedra de amolar
Caçarola e alguidar
Um aconchego no xote
Cheiro no pé do cangote
Um chamego nas menina
Corriola na esquina
Catavento girador
Dois vestidos furta-cor
Um curto e outro comprido
Eita Nordeste querido
Nordeste dos meus amor

Mulher bonita tem dono!
Santana já me dizia
Viola na cantoria
Cachorro no abandono
Um gatim morto de sono
No balcão de uma bodega
Seresta, forró e brega
Fuzarca de opositor
Um bebo declamador
Lembrando um verso esquecido
Eita Nordeste querido
Nordeste dos meus amor

Um braseiro de abano
Carne seca pendurada
No inverno a passarada
Um cantador soberano
Um jogador veterano
Viciado na sinuca
Galho de espantar mutuca
Burrinha, bode e trator
Mandioca e ralador
Um panelão de cozido
Eita Nordeste Querido
Nordeste dos meus amor

Vaqueiro jogando laço
Chocalho, bezerro manso
Rio cheio com remanso
Tardezinha no terraço
Caldo de cana, melaço
Querosene no bornal
Novena, pelo-sinal
Reza pra Nosso Senhor
Rede armada e cobertor
O meu lugar preferido
Eita Nordeste Querido
Nordeste dos meus amor

Biografia de Aral Moreira, por Luiz Alfredo Marques Magalhães: A importância do registro da história dos moradores da região, para preservação de sua cultura

Simone Possas Fontana
Campo Grande, MS, Brasil
@: simonepossasfontana1@gmail.com

RESUMO
O presente trabalho pretende efetuar a abordagem de uma das bases da literatura que é o registro histórico de uma sociedade, através da biografia. Conforme se depreende através da leitura, análise e estudo metódico do livro “Um Homem de Seu Tempo: Uma Biografia de Aral Moreira”, o assentamento histórico executado pelo pesquisador, fotógrafo, biógrafo e escritor Luiz Alfredo Marques Magalhães, ganhou substrato não apenas como base da literatura como era inicialmente esperado, mas também com um objetivo a ser alcançado e assim, mantido, de mostrar a importância de uma biografia para a identidade de um povo. Atualmente não mais se compreende a biografia apenas como uma base histórica, mas sim como um valor superior que deve ser considerado para aplicação e uso da literatura como instrumento de entretenimento, educação, instrução e aumento da intelectualidade. Pretende-se assim com a elaboração desse trabalho a compreensão da importância e do valor de uma biografia para a sociedade, bem como a distinção da utilização da mesma no campo da individualidade (leitura da biografia) e da coletividade (importância da identidade do povo da fronteira), com foco na literatura como um todo.
Palavras-chave: Biografia. Registro histórico. Cultura.

ABSTRACT
The present work intends to make the approach of one of the foundations of literature is the historical record of a society through the biography. As it can be seen by reading, analysis and methodical study of the book "a man of his time: a biography of Aral Moreira", the historic settlement run by researcher, photographer, biographer and writer Luiz Alfredo Marques Magalhães, earned not only as the basis of substrate literature as was initially expected, but also with a goal to be achieved and thus kept, to show the importance of a biography for the identity of a people. Currently, it is no longer understood the biography only as a historical basis, but rather as a superior value that should be considered for application and use of literature as a means of entertainment, education, instruction and increasing  of  intellectuality. It is intended with the preparation of this work the understanding of the importance and value of a biography for the society, as well as the use of the same distinction in the field of individuality (read biography) and collective (importance of the identity of the people of the frontier), with a focus on literature as a whole.
Key words: Biography. Historical record. Culture.

INTRODUÇÃO
Busca-se, com a elaboração deste trabalho, mostrar a importância e pertinência acadêmica e social de preservar a cultura de um povo, através do seu registro em livro. Essa é a ideia básica. A coleta de informações e o foco desta pesquisa estão delimitados no livro: “UM HOMEM DE SEU TEMPO – UMA BIOGRAFIA DE ARAL MOREIRA”, escrito por Luiz Alfredo Marques Magalhães. No contexto geral, o escritor descreve o cenário sociopolítico da região de fronteira entre o Brasil e Paraguai, mais especificamente entre as cidades de Ponta Porã-MS, no Brasil, e a cidade paraguaia Pedro Juan Caballero-PY.
Através de textos, documentos e fotografias da época apresentados em sua forma original, sobretudo cartas e manuscritos, todos transcritos literalmente para não interferir na realidade, assim como através de conversas, muitas histórias, lembranças do passado e relatos de Eraldo Moreira (filho de Aral Moreira), o autor mostra o processo de colonização do Estado de Mato Grosso do Sul por volta do século 18.
Quais as razões para analisarmos a importância da preservação da cultura de uma comunidade e quais as consequências que porventura surgirão com seu desprezo? Não há dúvida acerca da relevância do tema. Para essa compreensão facilmente se percebe que inúmeros escritores pretendem dizimar a ignorância, buscando garantir a perenidade e integridade de um povo, conhecendo seus personagens principais, seus problemas econômicos, sociais e políticos.
A escolha deste tema se deve ao fato da forte e vigorosa preocupação da falta de registros históricos para preservação da cultura, mas esse temor é minimizado com a leitura do referido livro, onde fica evidente e indiscutível, o relato perfeito da história, sem omissões e lacunas, através da transcrição de episódios, eventos, fatos e informações ocorridos com seres atuantes na história de Ponta Porã-MS.
PRESERVANDO A CULTURA
Um conjunto de folhas de papel, impressas, encadernadas ou em brochura, organizadas em páginas, que servem de instrução, formam um livro e um conjunto desses livros, possuídos por um particular ou destinados à leitura pública constituem uma biblioteca. A literatura é o conjunto dessas obras literárias de um país ou de uma época, formada por escritos narrativos, históricos, críticos, de eloquência, de fantasia, de poesia, etc. 
A literatura é o meio utilizado para conservar, aumentar e utilizar a cultura. A cultura é a arte e o modo de cultivar a instrução, o saber, o estudo ou um trabalho intelectual, com apuro, perfeição e cuidado.
Preserva a cultura, o escritor Luiz Alfredo Marques Magalhães, ao contar a vida de Aral Moreira, em sua biografia, narrando o comportamento, exaltando os feitos e os importantes personagens que marcaram a vida e as tradições da região de fronteira com o Paraguai, mais especificamente da cidade de Ponta Porã-MS, pós-guerra, enfocando os costumes, assim como o grande valor histórico na configuração do Estado de Mato Grosso, posteriormente, Mato Grosso do Sul.

A ECONOMIA DA FRONTEIRA
O país fronteiriço – Paraguai, antes da guerra, estava gerando condições básicas para a modernização do país, criando indústrias, abrindo estradas, além de lançar as bases do ensino superior. A economia da época foi assim descrita no livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai (CHIAVENATO, 1988, p.31):
[...] O Paraguai está numa ebulição de progresso. A produção aumenta (...) fumo, erva-mate, algodão, arroz, cana-de-açúcar e mandioca são abundantemente colhidos. (...) chega-se a colher a surpreendente soma de sete milhões de quilos de fumo; obtém dois milhões e meio de quilos de erva-mate e há um significativo rebanho de sete milhões de cabeças de gado bovino [...].
Já o escritor Romildo Villanueva (2000, p. 150), no livro O Inferno Existe; Eu Estive Nele, descreve sobre a agricultura da região de fronteira:
[...] A reforma agrária feita constitui basicamente na abertura de fronteiras para que, através de colonizadores, se produzisse a entrada de agricultores estrangeiros no Paraguai. (...) 350 mil brasileiros ingressaram no Paraguai, principalmente gaúchos, e mais de 50 mil de outras nacionalidades. (...) ficaram conhecidos como ‘brasiguaios’ ao longo da faixa fronteiriça. (...) triplicaram a produção de soja e algodão que representava 60% da economia paraguaia [...].
No livro Semblanza de La Antigua Punta Porã, Villanueva (2001, p. 49), nos relata que o desenvolvimento da região fronteiriça aconteceu no período do pós-guerra contra a Tríplice Aliança – 1865/1870, em função da exploração, produção e comercialização em larga escala da erva-mate. Passado o ciclo de ouro da erva-mate (1878), a fronteira sofreu uma brusca transformação: o cultivo do café em grande quantidade.


A ORIGEM
É esse cenário pós-guerra que é encontrado pelas famílias Trindade e Moreira ao se estabelecerem na fronteira, vindos do Rio Grande do Sul. Essa fronteira seca vive na harmonia entre as cidades de Ponta Porã-MS, no Brasil, e a cidade paraguaia Pedro Juan Caballero-PY, formada apenas por uma avenida, onde estão estabelecidos comerciantes em lojas de cosméticos, eletrônicos, calçados, roupas, tecidos, óculos, relógios, etc.
Luiz Alfredo Marques Magalhães conta-nos a origem das famílias Trindade e Moreira, e o início do sucesso do patriarca – Antonio Ignacio da Trindade – como empreendedor, pois recebeu terras do governo, optou por explorar a erva-mate, aconselhado por Thomaz Laranjeira, um gaúcho que escreveu seu nome na história por liderar essa exploração na fronteira. Logo após casar-se, Trindade foi viver em Ponta Porã-MS, cidade que se desenvolvera rapidamente com o comércio ervateiro.
A economia política que trata da produção, distribuição e consumo das riquezas da região, ainda não havia se preocupado com boas rodovias e é assim que Magalhães (2011, p. 29), descreve:
[...] Embora muitos pensem que Aral Moreira tenha sido um pontaporanense da gema, ele na verdade nasceu na Fazenda Boritizal, em Aquidauana (...) 20 de agosto de 1898, onde fez o curso primário (...) foi enviado para fazer o ginasial e faculdade de Direito no Rio de Janeiro. Chegar ao Rio naquele tempo não era uma tarefa fácil nem rápida. Aral partia de Ponta Porã no lombo de cavalo por mais de 200 quilômetros para chegar a Concepción-PY onde tomava um vapor até Montevideo e um navio de cabotagem até o Rio de Janeiro [...].
O livro “Um Homem de Seu Tempo”, objeto do presente estudo, nos traz vários assuntos que faz progredir nosso conhecimento adquirido, preservando a cultura, através de registros históricos dos costumes dos personagens da região fronteiriça entre os anos de 1900 e 1952. Magalhães (2011, p. 13 a 30) relata, desde 1826, através de textos e fotografias coloridas e em preto e branco, a saga das famílias pioneiras que deram origem ao biografado Aral Moreira: Trindade & Moreira. A família TRINDADE, com sua série de grandes acontecimentos na viagem épica desde o Estado do Rio Grande do Sul até chegarem a “terra prometida”: Mato Grosso do Sul e a família MOREIRA originária de Bouça, em Portugal, vindo para a América passando por Uruguai, Corumbá e finalmente Aquidauana-MS.
O PARAGUAI
A presente pesquisa documental foi desenvolvida e teve como fonte de investigação o livro “Um Homem de Seu Tempo”, de Luiz Alfredo Marques Magalhães, seus relatos históricos com um ponto de vista através de um tratamento sociológico, estudando os fatos sociais da época na região de fronteira. A fim de atingir um grupo de pessoas específico como professores, estudantes, jornalistas, historiadores, escritores ou amantes da literatura, foi escolhido e delimitado o tema, estabelecendo limites e informando o foco do presente estudo.
Vários autores escreveram sob a região da fronteira entre Brasil e Paraguai, suas lutas, seus problemas e qualidades, mas o livro ora estudado, com a biografia do ilustre Aral Moreira, é único, não passou antes por um exame minucioso em cada uma de suas partes; não ocorreu a separação de seus componentes, enfim, não teve um tratamento analítico e o que pode ser afirmado com convicção é: contando a vida de Aral Moreira, conta-se a vida da cidade fronteiriça de Ponta Porã-MS.
Ao chegar à fronteira, a família ancestral de Aral Moreira, encontrou uma Ponta Porã que estava se reerguendo. O Paraguai, antes da guerra, estava numa súbita manifestação de desenvolvimento, contando até com estaleiro e esses navios produzidos ali, partiam da capital Assunção para a Europa, carregados de erva-mate, fumo e alguns outros produtos, para voltarem com aparelhos científicos, armas mais sofisticadas, máquinas de imprensa e produtos químicos. Esse progresso foi assim contado no livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai (CHIAVENATO, 1988, p.32 e 33):
[...] Comparando-se a explosão nacional de progresso do Paraguai com a dependência total da quase inexistente indústria brasileira e argentina, é evidente que o Paraguai para a civilização inglesa era um perigo. (...) na metade do século XIX exporta madeira, produz louça fina, constrói ferrovias, exporta salitre, ergue fábricas de pólvora, papel e enxofre. Instala-se o telégrafo [...] implementos agrícolas são fabricados na fundição Ibycuí dando melhores condições de trabalho ao camponês paraguaio aumentando sua produtividade [...].
Além da famosa guerra que durou de 1863/1870, o Paraguai também sofreu conflitos internos, com movimentos revolucionários. Um desses grupos, após ser destroçado pelo exército paraguaio iniciou uma extenuante jornada pela cerrada floresta em direção à linha fronteiriça com o Brasil com a finalidade de requerer asilo político, como assim descreve o escritor Romildo Villanueva (2000, p. 129, 130), no livro “O Inferno Existe; Eu Estive Nele”:
[...] Alimentando-se de frutas silvestres e de alguns animais que conseguiram furtivamente caçar, os rebeldes fugitivos empregaram exatos 30 dias para atingir o objetivo. Geralmente a marcha era feita a noite com o intuito de iludir a constante vigilância aérea de um pequeno bimotor com bandeira paraguaia e equipado com metralhadoras que os perseguiu durante todo o trajeto de aproximadamente 300 quilômetros em linha reta. (...) o ingresso dos fugitivos em território brasileiro deu-se a uns 8 quilômetros a sudoeste do povoado [...] antes, porém, os fugitivos tomaram a preocupação de se livrar das armas de uso militar que portavam até aquele momento. Embrulhadas com pedaços de cobertores, estas foram escondidas num mato, dissimuladas convenientemente entre a folhagem [...].
Em respeito às almas das pessoas que morreram nesse fato cruento, até hoje lembrado por paraguaios e brasileiros que habitam essa região da fronteira, em meio a um terreno com um alto capim, foi fixada uma erma e tosca cruz de ipê, que resiste a ação do tempo. Com a intenção de preservar a história, relata Villanueva (2001, 143):
[...] uma iniciativa nascida no seio da sociedade pedrojuanina visa reparar esse dano histórico ocasionado pela passada ditadura, possibilitando a exumação dos restos ósseos que, provavelmente, ainda existam no improvisado cemitério [...] e, posteriormente, dar-lhes cristã sepultura em solo guarani (...) Para tanto, uma comissão multisetorial de ação cidadã que está sendo formada em Pedro Juan Caballero irá solicitar a intervenção da Comissão de Direitos Humanos [...].
É esse cenário pós-guerra que é encontrado pelas famílias Trindade e Moreira ao chegarem a Ponta Porã-MS.

A LINHA DIVISÓRIA: PEDRO JUAN
 CABALLERO-PY E PONTA PORÃ-BR
No livro “Semblanza de La Antigua Punta Porã”, Villanueva (2001, p. 52), nos conta que a grande contribuição para o aumento do progresso em Pedro Juan Caballero-PY (fronteira com Ponta Porã-BR) foi o ciclo da erva-mate, transformando aquela que era uma simples paragem em um ativo centro comercial. Era forte o monopólio da empresa Mate Laranjeira Mendes & Cia., em tudo que se relacionava com a produção, transporte e comercialização do produto cujo principal mercado foi, por muitos anos, a Argentina e o Uruguai. Os carregamentos se utilizavam de caravanas de carretas de bois, partindo da empresa Mate Laranjeira. Aí existia um enorme depósito no qual eram armazenadas as bolsas com a erva-mate antes do transporte final até o porto de Concepcion-PY através de penosas marchas com mais de 200 quilômetros, em viagens que demandavam cerca de dois meses entre ir e voltar.
Essa aprazível linha divisória teve sua posse inicial definida basicamente por pessoas vindas do Rio Grande do Sul que encontraram um lugarejo em formação, habitado por poucos agentes fazendários, guarda militar estadual e alguns paraguaios fronteiriços. Aos poucos foram chegando imigrantes uruguaios, argentinos, sírios, libaneses, espanhóis e italianos. A maior parte se dedicou a negociar gêneros de primeira necessidade para atender a procura dos fazendeiros, negociantes da erva-mate, funcionários públicos e militares, fomentando a movimentação do dinheiro, fazendo desenvolver o povoado, transformando-o na cidade de Ponta Porã. Essa cidade, na década de 1920, achava-se provida com o que de melhor havia no vestir, beber e comer dada a extraordinária simplicidade que sempre existiu na introdução de produtos estrangeiros.
Magalhães (2011, p.86) diz que bons carpinteiros e construtores ajudaram a erguer sólidas residências e armazéns, seguindo a linha arquitetônica neo-clássica imperante na época, uma influência dos imigrantes europeus, visível também em localidades vizinhas a Ponta Porã como Concepción no Paraguai e Aquidauana, Nioaque e Porto Murtinho, no Brasil. Magalhães, às folhas 87 a 97, mostra um apanhado das construções, seus moradores e documentos, em fotografias da primeira metade do século XX, a época em que Aral Moreira viveu: praça que era um palco ao ar livre onde ocorriam os eventos importantes da fronteira como desfiles cívicos e comícios políticos; igrejas; quartel do Corpo Militar de Polícia – obra da Companhia Mate Laranjeira; vala cavada em toda a extensão da linha divisória para impedir a passagem de veículos, pois cruzar a fronteira só era permitido em lugares pré-determinados em 1926; vista aérea da linha da fronteira em 1945; prédio da Pharmacia Estrella – pertencente à família de Aral Moreira inaugurada em 1926; prédio da Camisaria Royal (1927); quartel do 11º Regimento de Cavalaria (1924); Cine Brasil dividido em plateia e frisa (camarote térreo) e cadeiras superiores, tudo em madeira, inaugurado em 1935; Hotel Brasil e prédios residenciais da época.

ARAL MOREIRA:
UM HOMEM MÚLTIPLO DE AÇÕES
Em 1918 Ponta Porã ganhou seu primeiro clube social literário e recreativo com o nome de Grêmio Luz e Recreio. Magalhães (2011, p. 98) conta-nos que no Grêmio havia uma varanda em toda a extensão da entrada; no salão, piso de madeira – com longas, planas e lisas tábuas de ipê – mais de uma geração dançou ao som de bandas que iam de Assunção-PY e Campo Grande-MS, nos bailes tradicionais ou em animados carnavais. Em dias de semana, era lá que a juventude costumava passar algumas horas da noite ouvindo música de vitrola, enquanto bebiam uma Antarctica Original no bar (MAGALHÃES, 2011, p. 98):
[...] Nos fundos havia uma quadra de esportes, onde se jogava vôlei e basquete; em determinada época o tênis teve a sua vez (...) Aral fez parte das primeiras diretorias do Grêmio, sendo sócio e benemérito até o fim da vida. Em 1948 interrompeu sua participação: numa atitude irredutível, saiu em defesa de um sócio, que morava ao lado do clube (...) vem à tona algumas das evidências que reafirmam uma personalidade leal e democrática. (...) Aral Moreira saiu fortalecido do episódio (...) eram atos dessa natureza que conduziam um homem ao topo de uma carreira de sucesso [...].
O filho ilustre (por adoção) de Ponta Porã, Aral Moreira, possuía as qualidades de inteligente, erudito e estudioso e esteve sempre acompanhado por grandes figuras, personagens importantes que aparecem como destaque na sociedade brasileira (MAGALHÃES, 2011, p. 33):
[...] O futuro deputado ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1917. Lá conheceu Afonso Arynos de Mello Franco, um notável homem público brasileiro; quis o destino que o reencontrasse trinta anos depois, já na Câmara Federal do Palácio Tiradentes, ambos tomando parte da mesma bancada partidária [...].
Magalhães (2011, p. 37) descreve a convivência de Aral Moreira com mestres e intelectuais no Rio de Janeiro, que era a capital reconhecida como berço do conhecimento nacional. Isso estimulou o gosto pela leitura, pois era um insaciável leitor de jornais, cujos textos ele recortava e arquivava para posterior discussão ou releitura. Nos recortes encontrados estavam misturados temas de filosofia grega e poesia com informações sobre agricultura, descobertas médicas e avanços tecnológicos. E prossegue informando-nos sobre seu conhecimento científico e literário, que o marcou com um perfil de advogado correto, justo e ético (MAGALHÃES, 2011, p. 39):
[...] Admirava Machado de Assis e Julio Verne, leituras paralelas às obras de mestres do direito como Clovis Bevilacqua e Ruy Barbosa (...) Ao completar com louvor a faculdade, Aral já levava articuladas na mente as ideias que o fariam tomar cedo nas mãos as rédeas de seu próprio destino. Abriu imediatamente seu escritório e, com a marcante característica de sempre escrever suas petições em caligrafia de chamar a atenção, tornou-se rapidamente um dos mais conceituados advogados do sul de Mato Grosso [...].
Ao retornar para Ponta Porã, abriu seu escritório jurídico e envolveu-se em todas as questões sociais que considerava relevantes para a cidade. Em 1926 casou-se com Erotilde Saldanha e tiveram um único filho: Eraldo. Participou de clubes, obras assistenciais, associações comerciais e industriais; foi delegado, promotor público, prefeito substituto e representante de classe; consultor jurídico do estado, jornalista, comerciante, ervateiro e pecuarista e essa multiplicidade de ações o levou à política. Até se tornar deputado federal, Aral deixou para a cidade de Ponta Porã, um rastro de benefícios, admiradores e adversários (MAGALHÃES, 2011, p. 48):
[...] final da década de 1920 suas inclinações políticas começaram a lhe render grandes dores de cabeça, pois era sabidamente um liberal que não costumava mandar recados e que assumia publicamente suas opções ideológicas. (...) Ponta Porã era a segunda cidade mais populosa do estado (...) mas a riqueza gerada por tanta gente, fundamentalmente na atividade ervateira, não era reaplicada como deveria pelo poder situado no norte, o que colocava as duas regiões em atrito. Aral estaria entre os homens que não se conformavam (...) e lutaria como poucos para valorizar sua terra […].
Magalhães (2011, p.49) relata ainda que Ponta Porã, da época de Aral, estava passando por profundas transformações econômicas e acontecimentos político-sociais de relevo, tais como: passagem da coluna Prestes, Revolução de 32, as lutas comerciais em torno da erva-mate, a longa permanência e a posterior extinção da célebre Cia. Matte Laranjeira e a elevação da cidade a capital do Território Federal. Essa fronteira atraiu o olhar de Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança e Assis Chateaubriand.
Enquanto tudo estava em efervescência, Aral Moreira ia, aos poucos, iniciando-se na política, pois se destacava como um jovem advogado com talentosa inteligência, vindo de uma família tradicional e respeitado pela constância e persistência de índole, impecável postura, exprimindo com desenvoltura sua capacidade de persuasão e com firmeza sua arte da eloquência. Todas essas qualidades levaram-no a assumir trabalhos de influência: prefeito substituto, promotor de justiça, subchefe de polícia, consultor jurídico do estado, conselheiro municipal e deputado na Assembleia Constituinte.
O tempo foi passando, os ânimos ficaram mais exaltados por causa do processo revolucionário separatista do Estado de MT e Aral foi um dos primeiros a tomar a frente, com o intuito de trazer progresso à região (MAGALHÃES, 2011, p. 69):
[...] Armou-se e partiu para o confronto. Durante os três meses de duração do conflito, os serviços postais, que já eram precários (...) pararam de funcionar. As notícias (...) deixavam as famílias sobressaltadas; as correspondências eram entregues em mãos, levadas por mensageiros de confiança montados em cavalos ou mulas; as poucas estradas que cortavam o sul se tornaram extremamente arriscadas [...].
Magalhães reproduz, nas páginas 69 a 85, fotos de bilhetes e cartas de Aral Moreira ao comandante político separatista, informando acerca de seus movimentos no combate contra as forças legalistas.
Uma das fotografias era cuidadosamente por ele guardada e estava anotado no seu verso apenas o nome de Luiz Pinto de Magalhães, gaúcho de São Luiz Gonzaga-RS, que chegou a Ponta Porã em 1900. Foi um dos mais tradicionais homens públicos de Ponta Porã – primeiro delegado (1913), juiz de direito substituto (1926), prefeito interino em três oportunidades e um grande amigo de Aral Moreira (MAGALHÃES, 2011, p. 95):
[...] Aral manteve excelentes relações com aquele sul-rio-grandense que admirava pela correção de atitudes e nobreza de caráter. O filho de Aral, Eraldo, ao relatar passagens de sua infância, relembra que costumava correr pelo quarteirão da antiga Rua Rio Grande do Sul, atual Presidente Vargas, vindo do escritório do pai para o casarão de Luiz Pinto, que se localizava onde hoje é o Centro Pastoral da Paróquia São José, na Avenida Brasil. Eraldo levava consigo documentos para o amigo do pai assinar ou analisar, pois Luiz Pinto Magalhães, pela longa experiência adquirida no trato da coisa pública em Ponta Porã, era um homem para ser ouvido [...].
Aral Moreira também foi fundador e diretor por muitos anos do jornal A Folha do Povo, onde travou lutas ásperas e defendeu sempre o bom nome e os interesses de Ponta Porã. Antes de surgir com A Folha do Povo, alguns intelectuais da terra imprimiram nos primeiros anos da década de 1930, como nos conta Magalhães (2011, p. 106):
[...] ‘Tagarella’ tabloide em formato ofício que teve entre seus colaboradores uma figura que marcou época na cidade, o poeta e intelectual baiano José Baraúna, casado com a ponta-poranense Loreta Badeca. (...) surgiu ‘A Mutuca’ que tinha o objetivo explícito de criar polêmica com seu rival mais velho. As disputas eram bem-humoradas (...) ambos não se prestavam às necessidades formais do município como órgãos formais para veicular publicidade de cartórios e prefeitura. Para suprir surgiram: O Sul, O Correio do Povo, A Folha do Povo e O Independente [...].
Aral era um político inquieto e precisava de espaço para seus feitos e atitudes que vinham ressoando pelo Estado gerando admiração, amizades e adversários. O semanário A Folha do Povo estava com dívidas, certo desinteresse de seus proprietários, rodando precariamente e sem licença obrigatória para sua divulgação. Aral entrou com processo de registro federal distribuindo-o para todo o Estado e para a Capital Federal. Fotos de algumas notícias, editoriais e reclames ilustram as folhas 111 a 117 (MAGALHÃES, 2011, p. 110):
[...] O estilo sério e direto que Aral imprimia a seus editoriais – que não tratavam apenas de política apaixonada, prestava-se, sobretudo a repercutir os interesses da sociedade fronteiriça – foi o principal fator a contribuir para a relativa longevidade do semanário. Por quase quatorze anos, Aral esteve à frente da empresa jornalística. Em 1946 a venderia para sócios da Companhia Mate Laranjeira [...].
No final dos anos 1930, a produção ervateira mato-grossense alcançava seu melhor momento, quando eram exportadas mais de dezesseis mil toneladas anuais de erva, fora o consumo interno. Consolidava-se como o negócio mais rentável do sul do Estado, superando a pecuária bovina. Em 1938 nasceu o Instituto Nacional do Mate, com sede do Rio de Janeiro; tinha caráter normativo e era administrado por uma Junta Deliberativa. Amadureceu-se a ideia das cooperativas; seu maior propagador foi Aral Moreira, quando já fazia publicar no jornal A Folha do Povo estudos sobre as vantagens do sistema cooperativista. Em 1940 foi fundada oficialmente a Cooperativa de Produtores de Mate de Ponta Porã. Aral fazia parte como produtor e diretor (MAGALHÃES, 2011, p. 125):
[...] Em fins de 1938 nasceu um sindicato de ervateiros (...); entretanto a iniciativa não obteve o registro do governo federal. Antes, em 1936, Aral idealizou um Consórcio de Produtores onde agregou gente influente e abastada da região, para sensibilizar os produtores de erva; lançava assim a semente da futura Cooperativa de Ponta Porã (...) Em 1944 (...) organizou-se em Ponta Porã, a Federação de Produtores de Mate Amambai Ltda., que passou a exercer também o papel de exportadora, tendo sido Aral Moreira, um dos seus representantes [...].
A Argentina recebia um incremento populacional impressionante: gente de várias partes do mundo lá aportava atraída pelas facilidades oferecidas para o plantio e replantio de variedades de erva-mate. O enfraquecimento das importações é assim informado (MAGALHÃES, 2011, p.126 e 127):
[...] A única nuvem que escurecia aquele horizonte promissor (...) era que um dia seu principal mercado comprador, a Argentina, de alguma forma viesse a enfraquecer ou que atingisse a autossuficiência produtiva, interrompendo as importações. (...) a Argentina cessou de vez suas importações. Sobraram estoques, o preço caiu, o mercado minguou; desde então a erva-mate, produto-símbolo da riqueza de uma época, passou a desempenhar um papel ainda viável no século XXI, mas ocupando um posto secundário […].
Aral Moreira encontrava tempo para tudo. Foi um dos fundadores do Aeroclube de Ponta Porã, pois Getúlio Vargas, logo após criar o Ministério da Aeronáutica, abraçou o projeto “Deem Asas para o Brasil”, uma campanha que visava à doação de aviões e recursos para a construção de aeroclubes por todo o país. Ponta Porã foi brindada com dois pequenos aviões.
Paralelamente à vida forense e a grande paixão política, não perdeu o gosto pela vida da campanha. A primeira aquisição rural foi um sítio, último espaço de floresta nativa dentro da cidade de Ponta Porã, servido por um córrego e por uma mata que foi preservada e ampliada pelo próprio Aral com replantio de inúmeras espécies de árvores típicas da região entre ornamentais e frutíferas. Mais tarde, seu filho Eraldo aumentou a área do bosque e, em 1976, transformou a área num hotel pousada, que ainda hoje é o predileto de muitos visitantes.

A DESPEDIDA DE ARAL MOREIRA
O advogado, empresário e político Aral Moreira, faleceu em 1952. Enquanto aguardava a cirurgia a que se submeteria no Hospital dos Servidores no Rio de Janeiro, escreveu a todos os amigos mais chegados; relembrou passagens, mandou algumas ordens, solicitou favores; mesclando brincadeiras com assuntos sérios. Sintetizou a história que viveu com cada um. Sua percepção de que alguma coisa poderia lhe suceder, é transcrito por Magalhães (2011, p. 146) num trecho de uma das cartas:
[...] Amigo Luiz Issa! Saúde e alegria. Escrevo-lhe do Hotel, digo, do Hospital onde me encontro internado fazendo diversos exames para depois ser ‘carneado’ pela barriga. Você me conhece e sabe que não sou impressionável (...) aguardo a hora H com serenidade. (...) Caso eu deixe vocês em paz, indo deste mundo para baixo da terra, voltando para o lugar de onde saímos, peço-lhe que tenha certeza da sinceridade da amizade que sempre lhe dediquei. Você foi um dos raros, ou para ser franco, raríssimos homens que me compreenderam, me honraram e foram sempre solidários e confiaram em minha atuação [...].

CONCLUSÃO
O presente artigo pretendeu abordar uma das bases da literatura que tem por finalidade mostrar a parte histórica de uma sociedade, a partir da visão do escritor Luiz Alfredo Marques Magalhães. Essa base histórica, informadora e formadora de novas mentes pensantes, afigura-se como base educacional, esclarecedora e intelectual da literatura. Com efeito, essa base da literatura, em tudo instrutiva, é a norma que provê a unidade da educação, do esclarecimento e da informação. Simultaneamente, com sua função de entretenimento, desempenha também a literatura a função histórico-cultural.
O reconhecimento da importância histórica nos fatos narrados no livro foi fruto de um estudo, de conhecimentos adquiridos, observação e análise, laboriosamente engendrado tendo como parâmetro o livro “Um Homem de Seu Tempo: Uma Biografia de Aral Moreira”, escrito por Luiz Alfredo Marques Magalhães. 
A série de ideias, a variedade de assuntos, a sucessão de teorias que se desfrutam na literatura, torna-a uma excelente atividade atrativa e uma dessas atividades é a biografia. Já se pode falar em preferências e desejos, colocando a biografia como superfonte da literatura, sobrepondo-se a livros de história, pois, em face de sua natureza, a biografia descreve a vida de alguém narrando as fases dessa pessoa interagindo com a sociedade da época.
Não se quer dizer aqui que exista o predomínio das biografias, mas sua importância, sim. Acompanhada da base histórica, pode-se alcançar a completa harmonia com a fiança da força de produzir resultados positivos. E sob esse prisma, a base histórica é a função que mais se utiliza a biografia para atingir seus fins. 
Assim, com essa linha de raciocínio, tem-se que a partir de vasta pesquisa e estudo, paralelamente à trajetória do biografado – Aral Moreira, Magalhães apresenta elementos importantes da paisagem social, econômica, cultural da região da fronteira, as lutas políticas, a influência de grandes empresas e a questão divisionista do Estado de Mato Grosso.
Contando a história de Aral Moreira, conta-se um pouco da história de Ponta Porã-MS.

REFERÊNCIAS
CHIAVENATO, Julio José. Genocídio americano: a guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1988.
MAGALHÃES, Luiz Alfredo Marques. Um homem de seu tempo: uma biografia de Aral Moreira. Ponta Porã: Alvorada, 2011.
VILLANUEVA, Romildo. O inferno existe; eu estive nele. 3. ed. Ponta Porã: Borba, 2000.
VILLANUEVA, Romildo. Semblanza de la antigua Punta Porã. Ponta Porã: Cândia, 2001.

Nós, só nós

Pamela Lima
Itupeva, SP, Brasil
@: pamelaap.lima@gmail.com

Nós que não desatamos,
Nós que nos enlaçamos.
Nós que não sufocamos,
Nós que nos enroscamos.

Nós que nos atraímos,
Nós que nos distraímos.
Nós que nos prendíamos,
Nós que nos pertencíamos.

Nós que nos gostamos,
Nós que nos cuidamos.
Nós que nos apaixonamos,
Nós que talvez, um dia, amamos.

Se a virtualidade é máscara, o que mascara?

Maria Teresa Marins Freire
Curitiba, PR, Brasil
@: freire.mteresa@gmail.com

Pergunto-me se as pessoas utilizam a internet para ser o que não são. Alguém pode ser o que quiser, na virtualidade. E no anonimato, forja-se o interesse, falsifica-se as palavras, promete-se no vazio. A irrealidade é comprovada. Neste anonimato vale tudo. Vale esconder a verdadeira personalidade. Encobre-se vergonha, medo, falsidade, divertimento, desconsideração, desrespeito humano. 
Mas existe convivência virtual produtiva, festiva, inteligente, eficiente, consciente, resistente? Que cultua literatura, arte, intelecto, produções e ações? Que espaço é este, afinal, que nos prepara ciladas, que nos traz mensagens alvissareiras, que nos informa realisticamente, que nos dá notícias daqueles que estão ausentes, que nos faz sonhar, que nos deixa ler poesias, prosas de distantes autores, que nos permite mimar, dialogar, amar. 
Mais alguma coisa? Cada um pode me dizer isso.
Deparo-me com várias dessas situações frequentemente. A virtualidade vira espaço de convivência diária, relatam alguns. De envio de mensagens de bom dia, boa tarde, boa noite, carinhosas, amorosas, confessam outros. Ainda envergonhados, revelam que ficam radiantes quando chegam as frases. Prontas, já criadas, repetidas, desgastadas, despropositadas, mecanizadas. Nem expressam sentimentos reais. 
A convivência virtual alcança um nível de intimidade que às vezes não se realiza na presencialidade. Cria a expectativa do contato. A ansiedade prazerosa do som que anuncia a mensagem chegando. A troca de opiniões, pensamentos, visões de vida e futuro. O câmbio de sentimentos, de carências, de companhia, de beijos e abraços sentidos, mas não realizados. A conversa à vontade transforma o contato em diálogo de companheiros, de amigos. À vontade? Talvez porque seja na virtualidade. Este ‘estar à vontade’ se repetiria na presencialidade? 
E as conversas se estendem. Adensam-se. Os galanteios se oficializam. As brincadeiras alegram a conversa. Os trocadilhos dão uma pitada de graça. A sensualidade permeia as palavras, os textos pequenos, as imagens. A vista alcança o outro na tela do computador, na telinha do celular. Onde quer que esteja. E olhares se cruzam, mediados pelos aparelhos. 
E a pergunta surge: até que ponto a virtualidade substitui o contato pessoal? Muitos diriam que isto é impossível. Outros diriam que pode ser um complemento. Eu, anteriormente diria que não é o tipo de relacionamento ideal e que o contato virtual é para conversas eventuais, para substituir o contato telefônico, mas que não é base para manter um relacionamento, porque carece do afeto real, do sentimento percebido com os cinco sentidos, da presença. 
Hoje, eu diria diferente. Aliás, eu digo que o interesse de uma pessoa por outra também pode se sustentar com a virtualidade. Serve para tornar presente o que é distante. Quando há interesse verdadeiro não importa a distância. Alguns casos reais que ouvimos, que ficamos sabendo comprovam que o distanciamento pode ser físico, mas não afetivo. É o suficiente? Não, não acredito. Eu creio que precisa haver o contato físico, o olho no olho, as mãos dadas, o aconchego dos braços ao redor, o rir junto, o passear, o conversar em torno de uma mesa, o trocar ideias porque observaram algo juntos. Que não precisa ser todo dia. Mas que tenha presencialidade. Quanto tempo? Importa? Um dia, dois ou três dias. Não é a quantidade que define a qualidade. É a intensidade. 
Na virtualidade vale tudo, dizem muitos. A palavra mansa que acaricia, que aprecia, que elogia, que encanta, que cativa. Mas, que não tem este reflexo na realidade. Pode ser falsa, para distração, para galanteios ilusórios. Pode ser a projeção de algo que gostaria que fosse, mas que não pode ser porque as circunstâncias da vida, às vezes, não permitem. Pode ser verdadeira? E como comprovar se é verdadeira, se a distância os separa? No encontro pessoal? Então eu teria razão? O tempo de contato nos diria sobre a honestidade? A conversa de pouco tempo, de muito tempo, faria diferença? Lá do outro lado cada um faz o que quer, nem precisa contar ao outro. Lá do outro lado, pode ser rei ou mendigo. 
Se a virtualidade é máscara, o que mascara? A vontade de ser aquilo que não consegue ser, de fazer algo que se sente incapaz na realidade, de dizer algo que falta coragem dizer pessoalmente, de opinar por medo da reação, de discordar porque não tem coragem de fazê-lo ao vivo, de defender o que não consegue na frente de outros, de se expor, de se arriscar na vida real? Por que é cômodo? É possível fazer o contato quando se quer, quando se pode, quando outra atividade ou pessoa mais importante não lhe requer atenção. Quando está só e precisa de alguém para companhia. Quando não tem nenhum compromisso com a pessoa do outro lado do aparelho. Não importa se ela está bem ou não. Se está feliz ou não. Também dividem situações de vida. Alguns o fazem. Alguns são sinceros. Alguns verdadeiramente se sentem atraídos pela imagem, pela conversa, pela inteligência, sensibilidade, pela atitude, pelo jeito. Demonstrados, vislumbrados, caprichados, esperados.
Então, a virtualidade surgiu para esconder o que não se quer que o outro conheça? Para esconder o que não se quer que o outro saiba? Entenda? Acompanhe? Goste? Surgiu para facilitar os relacionamentos? Para propiciar um vínculo ideal quando a realidade não o é? Para iludir? Para enganar? Por pura distração? Há alguma sinceridade neste contato virtual? Tão popular e irregular, tão atraente e insistente, às vezes permanente, nem sempre coincidente, mas por todos conivente. 
Para aproximar? Ah! Quantos encontros realizados, quantas descobertas, quantas amizades, amores... Ah! Quantos amores nascem nesta virtualidade. Ah! Quantos desencontros acontecem nesta virtualidade! Quantos desamores se dissipam nesta virtualidade!
Mas, afinal outra questão surge: vale a pena a virtualidade? E você vai responder de acordo com o que ela lhe presenteia? Ou você será analítico, racional, objetivo e prático na sua resposta? Ou você poderá responder... Como você poderá responder?

Âmago (...)

Merlin Magiko
Luanda, Angola
@: sneeze84@yahoo.com.br

Ausente de mim,
Confinado no silêncio interior,
O que sobrou de nós amor!?
Se não a dor, um vazio sem fim...

Imagem caída,
Reflexo quebrado,
Sonho não acordado(...)

Ainda sinto...
Meu corpo vestido com o teu suor,
A sede de beber-te louca(mente),
Até ao brotar da flor(...)

Mas o silêncio calou-nos em nós,
Nos escombros da saudade,
Mas ainda ouço a voz...
A ilusão que não se cala por maldade,

O ego mutila quem somos,
Questiono-me, quem fomos...!?
Suscitam os nossos gemidos
Ecoam na minha alma,
A essência de lapidar-te

A tua ausência silencia-me
A saudade vicia-me,
Afoga-me no oceano dos sentimentos,
De(pressivo) dessa paixão com lamentos(...)

Inacabadas ilusões que surgem...
No âmago...
Ainda te ouço,
Quando te busco em consolo (...)

Bring me the disco king

Tim Soares
Florianópolis, SC, Brasil
@: tim_aloha@terra.com.br

Então eu danço.
Danço essa balada mambembe.
Danço com as ninfas,
com os ladrões e mentirosos.
Danço com os livres
e loucos
ao som do Rei do Disco
Danço essa sinfonia capenga
em dó sustenido.
Danço sob o manto escuro
da noite e sobre o chão
de um espelunca qualquer em Calexico.
Danço abastecido com o sagrado combustível do transe.
Danço com a paixão,
com o medo
e principalmente com a morte,
pois de frente com esta
todo mundo dança.

A mulher e a Psicanálise

Wildicleia de Oliveira Santos Lopes
Arapiraca, AL, Brasil
@: wildioliveiralopes@hotmail.com

A luta da mulher é algo muito recorrente. Parece que grita, fala e que nem sente! Mas que dor sai das entranhas e de um ventre que não quer gerar e que é obrigado a se calar para o Outro não lhe estranhar! Ou que quer viver em casa cuidando dos filhos, mas uma nova modalidade lhe diz que está ultrapassada, e que agora ela deve é ser cuidada. Que decide sair para trabalhar e ganhar muito mais, mas o homem não vai admitir ficar atrás! Que desde a infância passa por uma grande inconstância: “Será que é por aqui ou é por lá? A quem devo me endereçar? É preciso correr para alcançar a aprovação daquele que vai me completar, ele não pode me abandonar!”. É nesse trajeto que ela tende a caminhar. 
Quanta angustia vive na mente da mulher! Será que ela fala como uma tagarela porque ela quer? Será que aquele olhar que lhe prometia o mar, fez com que mergulhasse a ponto de naufragar? Criatura incompleta, sujeito da falta. A incompletude é tão angustiante que lhe maltrata. É preciso tamponar esse vazio, e quando alguém lhe provoca um arrepio parece que o problema está solucionado, o coração que pouco batia agora está acelerado. É o amor! Que em suas mais variadas vertentes lhe faz flutuar e achar que esqueceu tudo que tinha em mente. Até que o vazio lhe toma novamente. Tristeza, saudade, alegria.... Que sujeito para mudar de melodia! 
É complicado esse lugar! Quando será que ela vai se encontrar? Muitas vezes parece que as coisas lhe são impostas e que tem que acatar, como um acaso que faz sua vida definhar. Talvez ela precise deitar e fazer o que ela bem sabe que é falar! Falar suas inconstâncias, seus medos e devaneios. Dar as costas para a ideia de uma sociedade que apenas lhe coloca freios. Mas, ela pode deitar em qualquer lugar? Não, não! Ela precisa escolher um lugar especial, uma atitude talvez bem radical. Na verdade, pode até se sentir mal, mas com o tempo a coisa pode melhorar. Nada certo, porque garantia não há. 
Quem sabe ela tenha que conhecer algo apresentado há muitos anos atrás, Freud nessa descoberta foi bem perspicaz! Apresentou um caminho para o curioso inconsciente, foi a psicanálise que apresentou grandiosamente. Como uma pedra capaz de arrebentar corrente. Mas é preciso ter coragem para encarar o impacto que essa pedra vai se lançar. Não se sabe quantos estilhaços irão se espalhar. Coragem é preciso, não tem como negar, porque o trajeto é sinuoso e isso ela vai ter que encarar. Mas um ser que tem em sua história marcas de lutas e vitórias não vai se deixar amarelar. Ela é capaz de enfrentar o caminho do desconhecido! Porque por mais que ela não tenha percebido, muito mais doído que vasculhar um terreno na busca de se encontrar, é permanecer estagnado sem coragem de encarar o desejo enterrado naquele terreno que parecia estar abandonado. 

Psicóloga Clínica e Consultora Organizacional; Pós-Graduada em Clínica Psicanalítica.

Tutela Penal: uma necessidade contra o crime de biopirataria no Brasil

Bianca Marafiga
Dourados, MS, Brasil
@: biancamarafiga@hotmail.com

A biopirataria conceitua-se da apropriação não autorizada do patrimônio genético de uma região. Podendo englobar a exploração e o comercio ilegal de madeira, tráfico de animais e plantas silvestres. Um problema que assola os países biodiversos, inclusive o Brasil, que possui uma das maiores biodiversidades mundiais e populações tradicionais (indígenas e ribeirinhos) detentores de diversos conhecimentos tradicionais que aliados à biodiversidade atraem o interesse de nações desenvolvidas.
Embora a biopirataria seja uma prática decorrente desde a época colonial, foi a partir das últimas décadas que o tema vem alavancando discussões de cunho socioambientais mais significativos. Principalmente devido à evolução da biotecnologia e com isso a acessibilidade de registros relacionados às marcas e patentes de âmbito internacionais.
Desde os primórdios identifica-se que essa prática ilegal no Brasil está intimamente relacionada à fauna e/ou a flora. Como exemplo a extração do pau Brasil e o contrabando de sementes desde a época da colonização. Citaremos alguns dos principais casos de biopirataria no Brasil: 

I Exploração do Látex

Caso extremamente notório de exploração da biodiversidade, foi a extração do látex da seringueira, Hevea brasiliensi, e o contrabando de aproximadamente 70 mil sementes da espécie, que foram enviadas para a Inglaterra pelo inglês Henry Wickma – “pai” da Biopirataria. Tal atividade fez com que as colônias inglesas tornassem-se as maiores produtoras de látex do mundo no início do século passado. Este caso não foi considerado como roubo, pois o “naturalista” obteve autorização legal do governo brasileiro para exportar as sementes. 

II Exploração da Espinheira Santa

A Espinheira Santa é nativa da América do Sul, e no Brasil, pode ser encontrada entre os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A planta foi matéria de vários estudos científicos, sendo muito conhecida na medicina popular brasileira por seu caráter terapêutico. Principalmente no que diz respeito aos males do aparelho digestivo, tal como a úlcera, e pode ser utilizada também como remédio antitumoral. 
Os benefícios da Espinheira Santa foram apontados a partir de uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina do Paraná, onde o professor Aluízio França obteve êxito no tratamento da úlcera. A UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) buscou deixar mais restrita a pesquisa sobre a erva, comandada pelo professor Elisaldo Carlini, desde 1980. Entretanto, no ano de 1977, a partir de dados publicados pela CEME (Central de Medicamentos), do Ministério da Saúde, no “Journal of Ethnopharmacology”, provocou interesse em uma indústria japonesa, Nippon Mektron, que patenteou o produto, antecipando-se assim da Universidade, que só entrou com solicitação de patenteamento em 1999. (UNIVERSIA, 2003).

III Exploração Cupuaçu

O cupuaçu é uma árvore que está na mesma família do Cacau, podendo medir até 20 metros de altura. Na Amazônia, a fruta foi uma fonte primária de sustento para os povos indígenas e animais. O Cupuaçu tornou-se conhecido por sua polpa cremosa e de sabor exótico, usada em todo Brasil para fazer sucos, geleias, tortas e sorvete. A exploração do Cupuaçu pode ser considerada a mais popular sobre a biopirataria. Foi registrada pela empresa japonesa Asahi Foods, na qual houve o registro da marca cupuaçu, e também solicitação para patentear os processos que envolviam a fabricação do chocolate, a partir do cupuaçu, denominado “cupulate”. Tal procedimento não considerou que o processo de fabricação já havia sido solicitado pela Embrapa, junto ao INPI, em 1996, desconsiderando totalmente o fato do uso tradicional pelos povos da Amazônia. (DURAN, 2011).

IV Exploração da Fauna

A Jararaca (Bothrops jararaca) A jararaca é muito comumente encontrada no sudeste do Brasil, ocupando territórios de planícies e florestas e nutrindo-se de pequenos roedores. O veneno desta jararaca é consideravelmente esfacelador e coagulante, porém um pesquisador brasileiro, chamado Sérgio Ferreira, professor da faculdade de medicina de Ribeirão Preto, encontrou nele uma substância para moderar a hipertensão, o Captopril. Porém, o professor não possuía recursos suficientes para desenvolver a pesquisa, sendo assim, aceitou então receber ajuda do laboratório Bristol-Myers Squibb, nos Estados Unidos, que registrou a substância contrapressão alta antes do brasileiro (autor da descoberta), gerando um lucro aproximado de US$ 2,5 bilhões de dólares ao laboratório, obrigando assim, com que o Brasil pague royaltes à empresa caso queira usufruir da substância. (GEACE, 2010).
A biopirataria pode ocorrer das mais diversas formas, como por exemplo, através de pesquisadores disfarçados de turistas, estudantes, falsos missionários ou ONGs de fachada. O “trabalho” torna-se ainda mais facilitado, pois estamos na era da biotecnologia, na qual tudo o que se precisa para reproduzir uma espécie, são algumas
Células. Estas por sua vez, podem ser facilmente ser levadas e dificilmente detectadas, por mecanismos de vigilância e segurança. 
Observando as riquezas existentes em nossos biomas, pode-se perceber os inúmeros motivos de nosso país ser tão atrativo para os países desenvolvidos. Uma vez que estes possuem condições, de recursos e incentivos para desenvolver novas tecnologias, vende-las e patenteá-las, corroborando a apropriação privada da nossa biodiversidade.
Infelizmente o Código Penal Brasileiro, nem a legislação penal que trata de crimes ambientais abordam essa questão específica, na qual não tipifica a biopirataria como crime. A Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, em seu art. 25, trata de crimes ambientais, porém a biopirataria não é considerada um crime ambiental. Vale ressaltar que havia um projeto no Congresso Nacional para a inserção da biopirataria como crime nesta mesma lei, na qual foi vetado.
Neste sentido, a proteção da Biodiversidade é emergencial tendo em vista informes no sentido de que a quase totalidade de investimentos na indústria farmacêutica concentra-se em poucos países detentores de capitais, infraestrutura e com matéria-prima formada predominantemente por recursos genéticos obtidos no Brasil.
 O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) é legalmente responsável pela gestão do uso de quaisquer espécies com viabilidade econômica. Porém no que tange à Biopirataria, foi criada no IBAMA a Divisão de Controle da Fiscalização e Acesso ao Patrimônio Genético, na qual pretende-se que o desenvolvimento biotecnológico seja revertido em prol das populações tradicionais e indígenas, bem como, programas de incentivo ao combate da Biopirataria. Por outro lado, a Divisão de Propriedade Intelectual no Ministério das Relações Exteriores, atuante diretamente junto aos demais governos e empresas que patentearam produtos e contratam advogados numa tentativa de repatriar esses direitos. Destaca-se também o trabalho do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que em hipótese de envio de material para o exterior, impõe aos dirigentes das instituições brasileiras e estrangeiras firmarem “Termo de Compromisso: Exclusividade e Patente”, na qual compromete-se a utilização das amostras exclusivamente com finalidade de estudo. Portanto se a consultoria científica do CNPq considerar que a pesquisa impulsionará posterior bioprospecção, o projeto será enviado ao Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) para a obtenção da respectiva autorização. 
Mesmo diante destas medidas preventivas citadas acima, as previdências, ainda são insuficientes e interessa apontar, todavia, a resistência dos países mais desenvolvidos. 
Pelas entrelinhas da obscuridade, podemos enxergar a biopirataria como uma “nova colonização” dos países desenvolvidos. Isto porque o Brasil ainda sofre com a carência de fiscalização, falta de conhecimento sobre a biodiversidade, a pouca quantidade de pesquisadores na área e ausência de investimentos em ciência e tecnologia, quando comparada aos países desenvolvidos.
Face a essa problemática que assola nosso país, destaca-se a necessidade de tutela jurídica sobre o crime de biopirataria, pois sem ela haverá diretamente e/ou indiretamente a violação de outros direitos. Sendo assim, tutelar o meio ambiente é não somente garantir a qualidade de vida em nosso planeta, mas garantir minimamente a justiça diante de nossas descobertas científicas e os nossos direitos sobre as mesmas.

* Bióloga
Especialista em Educação e Gestão Ambiental
Mestre em Biologia Geral/Bioprospecção

Duas lágrimas

Ana Almeida Zaher
Araçatuba, SP, Brasil
@: hoane10@hotmail.com

Derramei duas lágrimas.
Duas lágrimas derramei.
Cheguei procurando...
Não vi você!

Derramei duas lágrimas.
Duas lágrimas derramei
Meus olhos percorreram...
A multidão, em vão.

Derramei duas lágrimas
Duas lágrimas derramei
Assistindo a uma peça de teatro
Que retratava uma história de amor.

Derramei duas lágrimas
Lembrei-me do quanto estou feliz!
Vivenciei naquele palco
Nossa realidade!
Apaixonados!

Derramei duas lágrimas
Todos choraram
Duas lágrimas derramei
Uma de emoção
Outra... Saudade de você.

Do alto (para Manoel de Barros)

Elias Borges
Campo Grande, MS, Brasil
@: elias_borgess@hotmail.com

Seu canto
conjuga
verbos inexistentes.
Pacifica arcaísmos,
neologismos...
Entende
na soma
do que escreve
desafio constante:
viver no alto do mastro.
Seu passo,
a um instante
de quem sempre
se arrisca.
Se errar,
não há rede
para o descuido.
Ninguém com
quem reclamar.

O gênio incompreendido

Kamba Kabeto
Luanda, Angola
@: alberto.kabeto@gmail.com

Vivo fora do espaço, do tempo
Eu e mais eu, de mãos dadas com o vento
Ora deito lágrimas, ora solto gargalhos
Amo estar no serviço, odeio fazer trabalhos

Pensamentos deixam a cabeça pesada
Na minha boca mora uma
multidão de palavras
Quero livrar-me delas, não pagam renda
Saem quando querem,
desobedecem a minha regra

Estou embriagado de raiva, farto com o fardo
Cansado de andar na estrada
que me leva ao nada
Amo a vida, mas a morte me deixa excitado
Sou eu o palhaço deste circo,
por favor, dêm risadas!

Elas me acham esquisito,
eles dizem que sou demente
O mundo detesta gente diferente
Tudo bem, alegrem-se,
festejem quando eu partir
Porém saibam, eu jamais desejei ficar aqui.

Sussurros da noite

Samuel Pedral
Nossa Senhora da Glória, SE, Brasil
@: samuelpd1@hotmail.com

Mil e uma estrelas e uma lua
Acoita os mistérios
E desperta os errantes

Intervalo permissivo
Entre o crepúsculo e a alvorada,
O repouso do dia!

Insônia e deleite
Ingratidão e refúgio

Êxtase...
Para os lunáticos
Para os astrônomos
Para as prostitutas
E para os poetas.

Espelho de Cristal

Leunira Batista Santos Sousa
Nossa Senhora da Glória, SE, Brasil
@: leunira.batista@hotmail.com

Sonho de cristal sobrepuja estrela
Com face transparente na rocha do tempo
Mar cristalino revolto em versos
Cruza oceanos em embarcação bela.

Mineral que a essência cintila
Explode em ondas sonoras
A nitidez do rio que o homem navega
Coberto com o véu que a natureza carrega.

Oriunda taça da felicidade
Que pousa no céu azul
O mundo em cartão postal
No anverso e reverso reflete o cristal.

Negação

Aliel Selet
Aracaju, SE, Brasil
@: aliel_teles@hotmail.com

Da vaidade ao desinvestimento
Das convicções o achismo
Motricidade e psique a ruir...

Desejos obnubilados e
Motivação estática ressonam
Dor de não vida pulsante

Angústia atroz reverbera
Cientificismo trafega
No mar amargo de conjecturas.

Mercado revelado

Evelyn Renard da Silva Nunes
Aracaju, SE, Brasil
@: vinha_as@yahoo.com.br

Chovia, chovia sem parar
Em meio aquelas ladeiras
Crianças....
Crianças que subiam e desciam
Roupas molhadas, cabelos encharcados
Em seus rostos a imagem da subsistência
Em meio à multidão, um carrinho
de mão os identificavam
Um, dois, três, quatro....
Pensava, como aborda-los em
meio aos seus rápidos passos,
em buscas de um trocado?
E assim, as horas se passaram, uma pequena caderneta, uma caneta, e rabiscos
de umas histórias de vidas.
Sai do mercado, com uma certeza,
que já não seria mais a mesma!
ECA, trabalho insalubre, Direito,
o que falta de fato para resolver esse dilema?