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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O chatólogo Figueiredo

Cahoni Chufalo
Mogi das Cruzes, SP, Brasil
@: cahoni@gmail.com

No início de seu famoso Discurso ao Método, Descartes diz ser o bom senso a coisa do mundo melhor partilhada. Isso porque ninguém julgava não possuí-lo, ou possuí-lo em falta ou em demasia. Da chatice poderíamos dizer o mesmo, mas pelo motivo inverso: ninguém julga possuí-la. No entanto, a experiência de qualquer indivíduo acordado demonstra que ela existe, é palpável, perceptível, amplamente disseminada, absolutamente democrática. Aparece em qualquer lugar, tempo, pessoa, objeto. Assim, embora ninguém assuma ser portador de tal moléstia, devemos concluir que a chatice é a coisa mais bem partilhada do mundo, muito mais do que o bom senso, quase raridade. Não é de se estranhar, então, que patologia tão onipresente se transforme em objeto de estudo.
Não sei se Guilherme Figueiredo foi o inventor da Chatologia. Seu Tratado Geral dos Chatos (1962) dá, entretanto, uma bela contribuição à matéria. Seria ciência? Dificilmente. O objeto é esquivo e bastante subjetivo. Basta pensar que aquilo que me chateia pode alegrar um outro. Ou aquele que acho chato pode ser chateado por alguém que acho não-chato. Não decorre daí, da dificuldade da matéria, que devemos virar as costas ao esforço do autor. Sua tentativa de definição e classificação do chato é de inegável valor. Não identificamos rapidamente o tipo chato-postulante, sempre a pedir algo a alguém, ou o chato-confidencial, sempre a contar uma nova fofoca imperdível agarrado aos colarinhos alheios? Outro vivo observador do comportamento humano (ou seja, comportamento do chato), Millôr Fernandes, tem uma definição do chato que se encaixa exatamente no tipo chato-confidencial. Diz ele que o chato é “o sujeito que tem um uísque numa mão e nossa lapela na outra”. Será que a coincidência dessas observações pode abrir caminho para um estudo mais objetivo dos chatos? O futuro das pesquisas nos dirá. O que fica claro é que o chato é gregário. Com a exceção, claro, do chato-de-si-mesmo.
O chato é gregário. Precisa do outro. Imaginem quantas novas classificações nosso especialista não faria nesses tempos de plena interconectividade? Guilherme Fiqueiredo morreu em 1997. Não pôde ver e analisar a chatice produzida, amplificada e globalmente disseminada graças à internet e às redes sociais. Pois a tecnologia encurta as distâncias. Aumenta, entretanto, o raio de ação do chato. O chato não mais precisa sair de casa para espalhar sua chatice. Ela nos chega de tempos em tempos, apitando ou vibrando nossos smartphones. E como a internet, especialmente as redes sociais, é um espelho do ser humano, temos todo o espectro da chatice humana (e mais alguns) sob a forma virtual. Temos o pacifista, o revolucionário, o militante, o ecologista, o engajado de Facebook; temos o intelectual, o filósofo, o sociólogo, o economista, o cientista, o matemático de Facebook; temos os polemistas, os catequéticos, os cientistas políticos, críticos literário-plástico-cinematográficos de Facebook; temos os místicos, os religiosos, os ateus, os otimistas, os pessimistas, os bom-vivants, os miseráveis de Facebook; temos os humoristas, artistas, narcisistas, jornalistas, humanistas, vanguardistas, tradicionalistas, carentes, revoltados, terroristas, puxa-sacos, machões e feministas de Facebook; temos aqueles que são uma mistura de alguns desses predicados e de outros não citados; e temos os casos extremos, aqueles que são tudo isso e mais um pouco. No Facebook, claro. A democracia digital permite que cada um de nós seja aquilo que diz ser. Ou quer ser. Ou, linguisticamente falando, se enuncia como sendo. A internet nos metamorfoseia. Geralmente, para pior. E toda essa vasta gama de personagens e informações que nos chegam todos os dias, bem ali na palma de nossas mãos, serve apenas para uma coisa: nos chatear.
A esfera da chateação virtual tem uma vantagem: pode ser abrandada. Com um pouco de coragem e autodomínio você poderá exclamar: hoje eu não entrei na internet; hoje não chequei meus e-mails nem entrei no Facebook; hoje, só por hoje, não fui virtualmente chateado nem chateei ninguém. A atitude nem sempre é fácil. Um dos vícios contemporâneos é justamente o vício da internet. E vícios são, justamente, a passagem do prazeroso à chatice. O viciado precisa de um esforço maior para curar-se do mal. E se tem a sorte de curar-se, continua a mercê das chatices habituais, diárias e nada virtuais de sempre.
O ônibus que não passa no horário; o chato-ofertante do telemarketing; o garçom simpaticão ou ultra grosseiro; as chatices causadas porque tinha um celular no meio do caminho (você conversando com alguém tête-à-tête que está conversando com alguém tête-a texto; alguém que quer mostrar um vídeo de oito minutos e meio que acabou de receber; etc.); os problemas do trem; os problemas do metrô; o chato-conselheiro, que aconselha sem ser pedido; o chato-reclamão, que vê os outros como um grande ouvido; o chato-patrão, naturalmente chato; o chato-artista (não o artista-chato), que espalha sua chatice em algo que ele diz ser arte; o chato...o chato...o chato...a chatice.
Há, porém, uma questão que o nosso chatólogo Figueiredo não se coloca: será que a chatice tem um lado positivo? Esse é o ponto levantado pelo cronista português Miguel Esteves Cardoso. Seu exemplo é a cultura. Diz ele: “Ora, quem sabe, sabe que a cultura, a verdadeira cultura, é efectivamente chata. (...) Seca, morosa, difícil, exigente, chata para morrer. Chata e boa. E ainda bem”!
Embora a palavra cultura carregue geralmente significados positivos (é bom ser culto, conhecer coisas, entrar em contato com novas, etc.), o problema está em que tornar-se culto é, muitas vezes, uma chatice. Para mascarar essa chatice, diz-se que a cultura é participativa, comunicativa, popular, relacional, generosa, alegre. Junte-se um bando de gente em um lugar qualquer, coloque-se um DJ, um grafiteiro, quem sabe uma performance ou uma expressão de cultura popular (capoeira, jongo, maracatu, sambinha), toneladas de cerveja e pronto: tem-se um evento cultural. O problema é que essa cultura nada tem a ver com aquela outra, mais alta, e que demanda tempo, solidão, paciência. Adquirir cultura é tarefa exigente, nem sempre consoladora, às vezes, angustiante. Há recompensa em algum lugar do processo? Quem sabe? O fato é que estudar, conhecer, ampliar e aprofundar ideias, é chato. A cultura é chata. Maravilhosamente chata. Porém, dizê-la chata é um jeito de nos defendermos dela. É uma boa desculpa para deixá-la de lado. Se é chata, por que gastar meu tempo com ela? Previne-se assim o contato com qualquer experiência mais árdua. Por outro lado, será inevitável que o homem (ou mulher) de cultura seja sempre um chato? Será por isso que Guilherme Fiqueiredo diz que “a erudição exaustiva é uma das formas sob as quais se apresenta um chato”?
O tema, como se vê, é vastíssimo. A chatice é chata, mas pode, paradoxal e dialeticamente, ser recompensadora em alguns casos. A investigação da matéria deve ser individual e diária. O que me chateia? A quem eu chateio, e por quê? Será que estou usando a chatice defensivamente, para não ter de lidar com algo que pode ser excessivamente árduo? Será que estou temendo tanto a chatice alheia que acabo num isolamento gelidamente chato? Muitas questões e reflexões a serem feitas. Mas paro por aqui. O texto já vai longo e nada mais chato do que ler resenhas enormes, quase em disputa com o próprio livro. Um último registro: quem quiser passar algumas horas não-chatas, que leia esse belo livrinho de Guilherme Figueiredo. Ele é infinitamente menos chato do que essa longa resenha de mais um desses resenhistas-que-acham-que-sabem-do-que-falam.

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