terça-feira, 6 de novembro de 2018

Entrevista com o poeta André Flores

Por Rogério Fernandes Lemes

A entrevista foi elaborada pelo escritor e editor Rogério Fernandes Lemes e concedida à Revista Criticartes, tendo a interação nas respostas através da internet. O entrevistado lança seu mais novo livro, que vem com uma proposta literária reflexiva, questionadora sobre a vida, mas permeado pela sensibilidade do autor e seu respeito ao ser humano. Boa leitura!
Foto: Arquivo pessoal do autor.

Revista Criticartes: Você tem uma boa experiência literária e premiado, inclusive, em vários concursos brasileiros o que demonstra uma sensibilidade poética. Como você percebe a angústia humana e sua relação direta com a poesia?

André Flores: Há 11 anos me dedico fervorosamente pela literatura. Durante este período, recebi algumas premiações, mas acredito na literatura como forma de transformação da sociedade. Toda poesia emana diretamente ou indiretamente da alma humana. Falar sob os dilemas e angústias as quais o ser humano passa é necessário para afugentar os nossos fantasmas. 

Revista Criticartes: Certa vez, Liev Tolstói escritor russo, disse “se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”. Qual a relação de sua obra com as cidades gaúchas de Novo Hamburgo e São Sebastião do Caí?

André Flores: Novo Hamburgo lancei o meu primeiro livro, mas São Sebastião do Caí e Portão, onde estou radicado, é a base de divulgação do meu trabalho e vendas das minhas obras. Considero que este ano fortaleci e muito a minha carreira literária no meu Estado, neste caso Rio Grande do Sul, no meio independente.

Revista Criticartes: Para Borges o tigre, o labirinto e o espelho eram símbolos enigmáticos da condição humana e sua perspectiva com a matemática e a física quântica, por exemplo. E para o poeta André Flores? Quais os símbolos utilizados como metáforas que sustentam sua produção literária?

André Flores: Acredito muito na formiga, pois organiza-se em trabalho de equipe para atingir um propósito, pois não realizamos nada sozinhos. 

Revista Criticartes: Dizem que os poetas são seres especiais e que veem o mundo de uma forma especial. Como você vê as mazelas humanas como a finitude e a impossibilidade de tocar o incompreensível?

André Flores: Com compaixão e respeito a dor humana. Solidarizo-me com causas sociais ativamente, pois a chave para uma sociedade melhor está na busca por um mundo melhor e justo a todos. 

Revista Criticartes: O que você diria aos novos escritores brasileiros que se deparam com dificuldades de toda ordem no momento de, efetivamente, publicarem suas obras?

André Flores: Estudem muito, leiam muito e escrevam muito. O segredo está na dedicação, empenho, esforço, paixão e muita humildade. 

Revista Criticartes: Como você avalia o movimento da leitura no Brasil?

André Flores: Acredito que há muito foco nos grandes autores, mas pouca visibilidade aos autores independentes, apesar dos esforços de muitas editoras. Somos anônimos e isolados pela grande mídia em geral. Há uma infinidade de autores maravilhosos pelo Brasil afora, sem ter uma oportunidade de lançar seus livros. Acredito que deva haver uma ferramenta que facilite o acesso a projetos de fomento à literatura no País para nós autores independentes. Existem leis, mas acabam favorecendo grandes autores.

Revista Criticartes: Seu primeiro livro “Subjetiva poesia” faz parte da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, um dos maiores eventos literários da América latina. Quais suas expectativas para um público tão plural?

André Flores: Sinceramente, é muito boa com relação a divulgação do meu nome enquanto autor. Participo da Feira do Livro desde 2013, porém em antologias. Este ano será o primeiro ano como autor solo. A minha expectativa é de interagir muito com outros autores de todas as partes, com o público e aprender muito.
Livro Subjetiva poesia, 64 p. 2018 pela Biblio Editora.
Revista Criticartes: Que tipo de escritor é você? Escreve de tudo um pouco ou, parafraseando a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, é um poeta de um gênero só?

André Flores: Atualmente, dedico-me somente à poesia. Por enquanto seguirei somente na poesia, mas penso futuramente em escrever crônicas. 

Revista Criticartes: Quando pensamos nos poetas e escritores vem a dúvida sobre o que leem e quais os seus autores preferidos. Quais as principais influências filosóficas de André Flores?

André Flores: Sou eclético, adoro ler o que é bom. Tenho alguns filósofos que gosto, Kant, por exemplo, poetas como, Pablo Neruda, Mário Quintana, Pensadores como, Paulo Freire, romancistas como Dan Brown e não poderia deixar de mencionar Luís Fernando Veríssimo e Tabajara Ruas. 

Revista Criticartes: O que o leitor brasileiro encontrará em “Subjetiva Poesia”?

André Flores: Questionamentos poéticos, sensibilidade, respeito ao ser humano, um olhar questionador, mas respeitoso e solidários com as mazelas sociais. 

Revista Criticartes: A pós-modernidade, como chamam alguns autores, é um tempo marcado pela ausência de referenciais sólidos em todas as manifestações humanas, das artes passando pela música e a literatura. Nesse contexto, aparece a tecnologia para “engolir”, de vez, o bom e velho livro. Na sua opinião o que poderia ser feito, enquanto política pública, para a formação de novos leitores no Brasil?

André Flores: Tenho um projeto juntamente com a Escritora e Poeta Nena Sarti (Presidente da ALB-MS), e Gislaine Camarata, onde temos por objetivo incentivar a literatura e produção literária nas escolas de Ensino Fundamental. A ideia é implantá-lo nas escolas pelo Brasil em 2019. Temos vários escritores pelo Brasil interessados em contribuir. 

Revista Criticartes: Como foi sua experiência com Biblio Editora em um ambiente totalmente virtual? 

André Flores: Foi muito bom, pois apresentaram um trabalho editorial maravilhoso. 

Revista Criticartes: A Revista Criticartes, em nome de seus leitores espalhados por todo o Brasil e em mais de 16 países, agradece sua participação nesta entrevista. Deixe suas considerações finais.

André Flores: Quero agradecer pela oportunidade dada a este aprendiz de poeta. Desejo que no futuro possamos ver a literatura tendo a devida importância, cuidado, incentivo e respeito ao qual merece. Espero ver cada vez mais jovens escritores surgirem e consigo possam contribuir com o fomento da literatura deste País.

LANÇAMENTO
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CURRÍCULO
André da Silva Flores ou André Flores (Aprendiz de Poeta), 44 anos, natural de Novo Hamburgo – RS, residente da Cidade de Portão – RS. Casado com Cristiane Kochenborger tem uma filha que se chama Letícia Kochenborger Flores. Filho de Antônio da Silva Flores e Teresinha Beatriz Flores. Criado na cidade de São Sebastião do Caí, aonde muito do material de inspiração para seus poemas, vem de experiências e vivências nesta linda, amada, pacata, simpática e acolhedora cidade. Formado em setembro de 2010 em Administração de Empresas pela UCS - Universidade de Caxias do Sul, Pós Graduando em Especialização em Educação a Distância pela UNOPAR.
Trabalha no Setor de Faturamento do Hospital Nossa Senhora das Graças em Canoas – RS. Premiado em concurso realizado pela Academia de Letras e Artes de Porto Alegre e Expresso das Letras, em Agosto em 2011. Premiado em Concursos realizados no estado do Rio de Janeiro (Oliveira Caruso) em: 2013, 2014, 2015 e 2016 assim como nos concursos Artífices da Poesia, da Editora A.R Publisher em 2016, Ancguedes 2016, Mérito Cultural da FECI, (Fundação Educacional do Sport Club Internacional), em 2016, 2017, Prêmio ABAS em Feira de Santa – BA (Março/2017) entre outros. Atua ativamente em blogs e jornais literários (Cabeça Ativa – SP, Poemas do Brasil - SE e Recanto das Letras - SP). Participou de 20 antologias impressas no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Sergipe, 15 e-books, onde em três oportunidades escreveu o prefácio. Atualmente escreve para as revista literária de Portugal (PORTAL CEN), como também para a (Logus da Fênix). Participou da II Antologia Internacional Criticartes 2018, organizada por Rogério Fernandes Lemes, da Biblio Editora.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Os desafios editoriais no Brasil: dilemas e perspectivas

Por Rogério Fernandes Lemes
Fonte: sergiocatarino.net
Este artigo é para qualquer pessoa, mas, especialmente aos novos poetas e escritores conhecidos em nosso tempo como “autores autofinanciáveis”. Não se trata de uma categoria nova. No entanto, as novas tecnologias delimitam novos paradigmas, ou seja, novas maneiras de interação editorial e produção de novas obras literárias.
Por exemplo, o procedimento para avaliação de originais, há vinte ou trinta anos atrás, era muito diferente e demorado. Os autores, ao concluírem seus livros submetiam, através de envios postais seus originais às editoras. Decorridos algum tempo recebiam a devolutiva se seus originais seriam ou não publicados.
A dinâmica de tais publicações sempre beneficiava os editores, pois estes possuíam os meios necessários para publicação destinando, dessa forma, uma pequena porcentagem das vendas dos livros aos seus autores, em média, dez por cento. Se voltarmos ao século passado e tomarmos o livro russo Crime e Castigo, por exemplo, constataremos sua produção em partes, ou por capítulos, que eram enviados ao editor à medida que Dostoiévski os concluía.
De qualquer forma, os autores quase sempre desprovidos de recursos econômicos, ficavam à mercê da lei de mercado, a oferta e a procura, além dos editores priorizarem a literatura comercial, obviamente. O foco das editoras sempre foi o lucro, independente se a produção fosse superior ou inferior, para utilizar a definição de Aristóteles quando atribui assuntos superiores à tragédia e, inferiores, à comédia.
Quando falamos, anteriormente, que as novas tecnologias mudaram essa dinâmica editorial, é no sentido de uma facilidade e aproximação entre autores e editores, principalmente ao processo que conhecemos como autofinanciamento de livros. Os autores autofinanciáveis contam com as pequenas editoras espalhadas por todo o país, além da possibilidade que as gráficas oferecem para as pequenas tiragens, a partir de cinquenta exemplares.
E quais seriam os prós e contras desse novo modelo editorial praticado? Quais as vantagens e desvantagens para os autores? A produção editorial tem o mesmo valor literário de um livro produzido em uma grande editora? Para responder a essas perguntas vale lembrarmos que Manuel Bandeira, e outros poetas brasileiros consagrados, fizeram pequenas tiragens autofinanciáveis de seus primeiros livros, em torno de 200 exemplares.
A facilidade de comunicação direta com o editor, no caso das pequenas editoras, é a primeira vantagem que os autores encontram para tratar da produção de seu sonho literário. A possibilidade de uma pequena tiragem também é algo importante, que evita o acúmulo de livros parados, sem falar no valor final do projeto, algo que não comprometeria o orçamento de seus autores. A produção editorial e tão válida quanto um livro publicado por uma editora de renome nacional ou internacional, pois os livros são registrados na Biblioteca Nacional, possuem ficha catalográfica, envio de exemplar à reserva legal ou averbação da obra no Escritório de Direitos Autorais. Outra vantagem considerável aos autores é o fato de que receberão o valor das vendas de seus livros, cem por cento.
E no que se refere às desvantagens dos projetos autofinanciáveis? O fato dos autores financiarem cem por centro do projeto seriam uma questão e, o fato da distribuição dos livros às livrarias do país, seria a outra desvantagem considerável para a divulgação do nome de qualquer autor.
Mas nos deparamos com outra questão de fácil resposta. Escrever algo brilhante e comercialmente viável para que uma grande editora escolha os originais e tente emplacar no mercado, ou publicar, ainda que com outras pretensões pessoais mais modestas, seus livros há muito guardados nas gavetas? Com a consciência e o desejo de que seus escritos sejam conhecidos e lidos, é que os novos autores autofinanciáveis investem em seus sonhos literários.
Outra vantagem já mencionada, a da pequena tiragem, é o fato de uma rápida reimpressão de exemplares de acordo com demanda dos autores. Essa agilidade garante uma carreira literária local bem consolidada. Esperar a vida toda para escrever o texto perfeito ou mesmo ter os originais aceitos por uma editora que, além de distribuir e lucrar muito, caso o livro se torne um best-seller, além de receber dez por cento dessas vendas, é um fator definitivo para que os autores autofinanciáveis invistam em seus projetos.
As novas tecnologias e as parcerias comerciais entre editoras, gráficas e transportadoras derrubaram as barreiras entre editores e autores, em qualquer parte do país. O crescente aumento desses setores empresariais no mercado garante preços, economicamente viáveis, além de qualidade de impressão e prazos de entrega.


Rogério Fernandes Lemes é sociólogo, jornalista, editor, poeta e escritor, autor de quatro livros.

terça-feira, 19 de junho de 2018

O guizo no pescoço do gato

Imagem: http://i2.wp.com
O período de vida de uma pessoa, em média 73,7 anos, é um grande aprendizado. Ou pelo menos deveria. Esse período é dividido em fases que oscilam de acordo com o aprendizado da pessoa. O fato é que, durante toda a vida, as pessoas vivem suas vidas envoltas em necessidades e demandas, sejam elas fisiológicas, psicológicas, econômica ou emocionais.

Resolver os problemas que aparecem no decorrer da vida é um grande mistério, pois cada pessoa recebe e reage de uma forma peculiar, diferente de outros comportamentos. Se fôssemos tentados a classificar o gênero humano poderíamos especificá-lo em três grupos distintos: as pessoas de ação, aquelas pessoas que apenas observam e as que perguntam, indiferentes, sobre o que aconteceu.

E por falar em problemas e dificuldades da vida ou sobre as fases da vida de uma pessoa, talvez fosse interessante pensarmos como um jovem agiria diante de uma situação de injustiça. Poderia ele sair depressa em defesa do mais fraco, ou tomar para si as dores e cometer algo mais grave. Uma pessoa de média idade, talvez, refletisse primeiro sobre as possíveis consequências decorrentes de seus atos. Ou ainda, uma pessoa da melhor idade, olharia e, de forma sensata e segura, orientaria sobre a melhor maneira, ou a mais razoável, na resolução de um litígio.

Seja como for, o fato é que nunca estamos preparados para lidarmos com nossas frustrações, sejam elas pela decepção de pessoas que admiramos ou, quando somos confrontados por argumentos superficiais ou mesmo dissidentes. Difícil mesmo é encontrar um ser humano comedido diante de possíveis ataques gratuitos, ataques estes muito comuns no contemporâneo ou na chamada pós-modernidade.

Já dizia o velho Bauman sobre a banalidade da vida; sobre a ausência de referenciais de justiça e nobreza; ou ainda, sobre a predileção humana pelo efêmero e tudo aquilo que o satisfaça suas vontades de forma imediata. É comum ouvirmos das pessoas mais velhas sobre os tempos passados. Ainda hoje, em uma roda de conversa com pessoas atendidas sobre o uso e abuso de álcool e outras drogas, uma senhora disse, carregada de saudades, o seguinte: “a gente era feliz e não sabia meu fio”.
Diante dessas dificuldades que enfrentamos, no decorrer de nossas vidas, uma fábula de Jean de La Fontaine exemplifica, com maestria, as atitudes das pessoas diante de um grande problema. Conta-se que há muito tempo, um grupo de roedores reuniu-se em assembleia para deliberarem sobre um perigo mortal que afetava a todos. Eles tinham consciência não apenas de que o mortal problema era o gato, mas principalmente, a desvantagem que tinham em relação aos ataques-surpresa.

Estavam convictos de que se pudessem ouvi-lo se aproximar teriam uma chance de escaparem ilesos. Então um daqueles ratos, do grupo dos que apenas sugerem soluções rápidas, afirmou que o ideal seria colocar o inimigo em desvantagem. Para isso, um objeto barulhento deveria ser afixado ao pescoço do bichano. A assembleia recebeu a sugestão com alegrias e delírio da ratadela.

Um rato do terceiro grupo, que até então apenas ouvia as divagações de desespero dos mais jovens levantou-se, com dificuldades, e pediu a palavra. Calmamente foi ao âmago da questão. Perguntou quem teria a coragem de colocar o guizo no pescoço do inimigo. Um silêncio sepulcral tomou conta do esgoto. Em outras palavras, concluiu o velho rato, não é difícil propor soluções ou fazer juízos de valor sobre as pessoas e suas ações, difícil mesmo é a efetividade das elucubrações.

O equilíbrio nas emoções vem com o tempo, junto às cicatrizes das traições; da falta de hombridade das pessoas que admiramos; da miserável condição humana encharcada por seus desejos e interesses mesquinhos. Compreender que nenhuma pessoa pode dar aquilo que ela não tem é uma forma prudente de ouvir os passos do inimigo silencioso, a inveja.

Se o mal vê o bem como um gato silencioso isso não significa que poderá vencê-lo. O silêncio sempre foi uma arma poderosa na mão dos sábios, pois eles sabem que, mais cedo ou mais tarde, a covardia dos néscios será sua própria condenação e que, principalmente, nada ficará ocultado.

O Autor

ROGÉRIO FERNANDES LEMES nasceu em Amambai, MS, no dia 13 de maio de 1976. Formado em Ciências Sociais. Publicou “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017); e, “Palavras amontoadas” (Poemas, 2018). É membro da Academia Douradense de Letras e membro Correspondente da Academia Gloriense de Letras, em Sergipe. Idealizador da Academia Amambaiense de Letras. Atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores no MS. Criador da Revista Criticartes e da Biblio Editora. Organizador das Antologias Criticartes e da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos.

domingo, 17 de junho de 2018

O pulo do gato na universidade

Imagem: https://4.bp.blogspot.com

Entre os dias 25, 26 e 27 de junho, acontecem na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Unidade Dourados, o VI Encontro de Pesquisa na Pós-Graduação de Letras; o VIII Congresso Nacional de Estudos Linguísticos e Literários de Mato Grosso do Sul; o IX Encontro de Pesquisa na Graduação de Letras; e, o I Encontro do ProfLetras. O evento anteriormente marcado para os dias 28, 29 e 30 de maio foi adiado devido à greve nacional dos caminhoneiros.

É com muita satisfação que recebemos o convite da Professora Doutora Zélia Nolasco para participar, como palestrante, de um minicurso de quatro horas no dia 26, das 13 às 17h, com o tema: “Passo a passo: como elaborar um artigo científico”.

A temática do CNELLMS 2018 será “Letras: teoria e prática”. Trata-se de um esforço na formação e complementação de conhecimentos teóricos e práticos voltados aos acadêmicos, uma parceria da UEMS com grupos de pesquisa e Instituições de Ensino Superior de Mato Grosso do Sul e do Brasil.
Um legado importante do evento, na área da Literatura, é a valorização das obras literárias dos escritores sul-mato-grossenses. 

O fortalecimento dos grupos de pesquisa e das bases científicas da área de Letras no Estado; a interação entre pesquisadores das áreas de Linguística e Literatura e acadêmicos de MS; a possibilidade de intercâmbio entre pesquisadores e estudantes da graduação em Letras; a divulgação de trabalhos científicos através de mesas redondas e minicursos são alguns dos objetivos específicos propostos por seus organizadores.

Entre tantos nomes renomados, e ciente de tão grande responsabilidade, é que preparamos um cronograma simplificado para a formatação e apresentação de trabalhos científicos em conformidade com as “temidas” normas da ABNT, que tem tirado o sono de muitos acadêmicos. No entanto essas preocupações são desfeitas a partir da aprendizagem de corretas informações e alguns minutos de exercícios editoriais.

Faremos não apenas uma apresentação teórica sobre a estrutura de um artigo científico, as suas especificações de formatação, que variam de instituição para instituição, mas também exercícios práticos. Para tal, selecionamos um texto publicado na internet e que utilizaremos como base para toda formatação necessária, incluindo paginação, espaçamentos, configurações necessárias para uma excelente apresentação gráfica de um trabalho acadêmico. E o mais importante de tudo isso: de uma forma simples, assim como administrar uma conta em uma rede social.

Uma dica importante é retirar toda a formação do texto, o que chamamos de texto puro. Depois que seu artigo estiver inteiramente digitado, selecione, copie e cole em um bloco de notas. Para quem utiliza o Windows, assim como eu, basta digitar no local de pesquisa: notepad e teclar Enter. Esse procedimento remove toda e qualquer formatação do texto, o que permite retorná-lo a um novo documento do seu editor de texto e trabalhar com tranquilidade.

As normas da ABNT são relativamente simples em sua compreensão, mas exigem constante leitura e prática. Resumidamente, a formatação mais comum para um artigo científico está em torno do seguinte conjunto de ações: fonte utilizada: Times New Roman ou Arial, tamanho 12 para o texto e 10 ou 11 para citações; letras na cor preta e tamanho do papel em A4, ou 21 por 29,7 centímetros; o espaçamento entre linhas é de 1,5 para o texto e espaçamento simples para as citações.

No dia 26 de junho, após vários exercícios de formatação de texto e a mentalização das ações previstas nas normas da ABNT, faremos a seguinte proposição: “como seria prático se pudéssemos digitar nosso artigo científico e depois clicar em apenas um botão e, como num passe de mágica... voilà! A formatação rápida e pronta para alguns ajustes finos. Ah, como seria maravilhoso!

Parece até um comercial da década de 90 onde vendedores, desesperados, vendiam não apenas uma faca japonesa, mas 399. No caso de nosso minicurso será possível dizer aos acadêmicos: “Sim! Agora você pode! Exatamente dessa forma”. E como faremos isso? Através do recurso de gravação de macros. Mas isso é matéria para o minicurso do dia 26. Até lá!

O Autor



ROGÉRIO FERNANDES LEMES nasceu em Amambai, MS, no dia 13 de maio de 1976. Formado em Ciências Sociais. Publicou “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017); e, “Palavras amontoadas” (Poemas, 2018). É membro da Academia Douradense de Letras e membro Correspondente da Academia Gloriense de Letras, em Sergipe. Idealizador da Academia Amambaiense de Letras. Atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores no MS. Criador da Revista Criticartes e da Biblio Editora. Organizador das Antologias Criticartes e da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos.

sábado, 9 de junho de 2018

Cordel das Neves às Nuvens - Rogério Fernandes Lemes

1ª edição 2018

I
No Mato Grosso do Sul
Do Sergipe, bem distante
Um livro de cordelistas
De cara se fez gigante
A primeira antologia
Que fala da covardia
De um assunto preocupante.

II
Tem como organizadoras
Duas feras do papel
Uma chama Daniela
E a outra é a Izabel
A primeira é dos Bento,
A segunda, Nascimento
São rainhas do cordel.

III
A primeira antologia
Com dezessete relatos
Foi um grande desafio,
Em cordel, contar os fatos
Mas o belo resultado
Em cada verso grafado
São reais, não são boatos.

IV
Alaíde Souza Costa
Foi nas trilhas do cordel
De família muito humilde,
Hoje grande menestrel
Escreveu a sua história,
Registrou sua memória
Para sempre no papel.

V
São dezessete mulheres
Que falam de coração
Sobre como o preconceito
Atravessa geração
Deixar a mulher de lado,
Além de ser um pecado,
É uma triste decisão.

VI
São vozes cotidianas
Contra um machismo insano
São vozes que vem das neves
Às nuvens de um céu ciano
Falando do preconceito,
Do carinho e do respeito
Para o cordel sergipano.

VII
Esta obra primorosa
Registrada no papel
É uma bela iniciativa
Da versátil Izabel
Linda voz que anuncia
A brilhante Academia
Sergipana de Cordel.

VIII
Se ficou interessado
Não se avexe, vá depressa
Garantir seu exemplar
E não fique fora dessa
Leitura de qualidade
Com relatos de verdade
E que deixa uma promessa.

IX
Que venha o segundo livro
Porque um só não dá conta
De expressar tanta beleza
Quando a vida é quem reconta
Histórias de preconceito
E da falta de respeito
Que de falar amedronta.

X
Deixo aqui a minha dica
Pra aumentar sua cultura
Ao invés de celular
Faça esta bela leitura
Além de ficar sabido,
E ainda mais esclarecido
Se embarcar nessa aventura.

Participantes da I Antologia das Mulheres do Cordel Sergipano

O Autor

ROGÉRIO FERNANDES LEMES nasceu em Amambai, MS, no dia 13 de maio de 1976. Formado em Ciências Sociais. Publicou “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017); e, “Palavras amontoadas” (Poemas, 2018). É membro da Academia Douradense de Letras e membro Correspondente da Academia Gloriense de Letras, em Sergipe. Idealizador da Academia Amambaiense de Letras. Atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores no MS. Criador da Revista Criticartes e da Biblio Editora. Organizador das Antologias Criticartes e da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Deu ácaro em Ícaro

Imagem: http://4.bp.blogspot.com

Por Rogério Fernandes Lemes
Vice-Presidente da UBE-MS

O título acima é um empréstimo descarado de uma publicação da escritora gaúcha, radicada em Campo Grande (MS), Janet Zimmermann vencedora do Prêmio Guavira na categoria poesia. Não apenas acompanho suas publicações como também procuro extrair, ao máximo, o fio de Ariadne de sua poética.

A publicação de Janet não era exatamente como o título deste texto, mas esta: “E deu ácaro no ícaro sem asas”. Instantaneamente pensei nos milhares de exemplares de livros, Brasil a fora, mofando nas estantes, caixas úmidas e prateleiras empoeiradas, quando não, como suporte para escoro de toda natureza. É uma tristeza saber que os livros revelam ensinamentos e caminhos iluminados e são desmerecidos dessa forma.

Ao busílis então. O livro que está sob o mouse do meu computador, servindo a outro propósito, temporariamente, é de autoria do Professor Vasko, o cearense mais sergipano que já conheci. Seu livro, Busílis, publicado em 2015, é um esforço intelectual para presentear adolescentes e jovens. A lexicografia diz que busílis é o cerne da questão ou do problema. E qual seria o problema dos autores brasileiros?

Para muito além de pensar nas dificuldades econômicas na produção de um livro, existe a temida e desafiadora falta de leitores. Escrever um livro apenas para engrossar o mofo e alimentar os ácaros não cumpre a função social da produção do conhecimento. Não há lógica em destruirmos árvores para produzirmos livros para traças devorarem. Seria mais aceitável deixarmos as árvores para a produção de nosso oxigênio.

Confesso que ainda não sei, com precisão, a real intenção da autora, mas a associação à falta de leitores revela-se interessante em uma país que ainda lê pouco, se comparado a outras culturas. Cientes de que a falta de leitores é uma pedra no caminho dos autores, outro questionamento interessante é sobre o tipo de leitura preferido por boa parte dos brasileiros.

Levantamentos recentes apontam para os livros de autoajuda e religião. A partir de tal constatação, erraríamos menos se entendêssemos como uma curiosidade a respeito do suprassensível? Ou, ainda, uma busca consciente para superar a dor de ser humano?

Um verdadeiro labirinto são as certezas humanas sobre o desconhecido. Assim como Dédalo, pai de Ícaro, construímos condições favoráveis não apenas para entrarmos, mas, principalmente para sairmos dos labirintos da vida. Utilizamos, para tal, mapas corroídos, pelo tempo e pelas traças, com informações desencontradas e construídas, em grande parte, para nos manter estáticos.

Uma importante dica para a libertação das amarras de nossas certezas encontra-se nas inumeráveis páginas dos livros produzidos ao longo da história da humanidade. É necessário apenas motivação para apreciá-la, interpretá-la e aplicá-la a uma vida de contemplação e entendimento.

Tire as traças, espante os ácaros, leve seus livros preferidos para o banho de sol e ilumine-se com tamanha satisfação.

Mais do que um jogo de palavras, Ícaro realiza o sonho de voar para longe de sua prisão, o labirinto do Minotauro, assim como nós, de nossa finitude. Não voar perto do sol ou próximo ao mar foram as advertências que o jovem Ícaro ignorou. O desejo de se aproximar do sol foi fatal para sua queda no mar Egeu.

O voo de libertação da ignorância também requer advertências prudentes. Boas leituras, reflexões sobre aquilo que se lê, aplicabilidade no cotidiano são relevantes observações para quem deseja voar livre, leve e solto na imensidão do conhecimento.

Não serão asas de penas e cera ou as paredes deste mundo as responsáveis por nosso movimento limitado, mas a atenção aos ensinamentos duramente materializados nas páginas dos livros.

Duas coisas entendemos como extremamente cruéis: a não compreensão da condição humana e o banquete farto das traças.

Nasceu em Amambai, MS no dia 13 de maio de 1976. Formado em Ciências Sociais. Publicou “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017); e, “Palavras amontoadas” (Poemas, 2018). É membro da Academia Douradense de Letras e membro Correspondente da Academia Gloriense de Letras, em Sergipe. Idealizador da Academia Amambaiense de Letras. Atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores no MS. Criador da Revista Criticartes e da Biblio Editora. Organizador das Antologias Criticartes e da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Feira Literária do Sergipe terá palestrante de Mato Grosso do Sul

Tatiane Araujo fotografia
A Academia Gloriense de Letras – AGL, da cidade de Nossa Senhora da Glória, Estado de Sergipe, organizará a Feira Literária de Glória – FLIG, entre os dias 25 a 27 de abril de 2018, no espaço Boteco do Sertão. O evento conta com a parceria do Clube de Leitura Antônio Carlos Viana, Instituto Federal do Sergipe, Academia Sergipana de Contadores de Histórias e Universidade Federal de Sergipe – UFS.

Confirmaram presenças a poeta e prosadora Dina Salústio, de Cabo Verde na África, o escritor Lau Siqueira e o poeta e escritor sul-mato-grossense, Rogério Fernandes Lemes. O escritor Lucas Lamonier, Presidente da AGL, é quem está à frente dos trabalhos literários. A Abertura Oficial da FLIG será na quarta-feira (25), às 18h, com a participação especial da Orquestra Sinfônica da UFS e o encerramento, na sexta-feira (27), às 17h.

A FLIG terá, como atrações abertas ao público, Exposições, Contação de Histórias, Rodas de Leitura, Palestras, Oficinas de Teatro e Cordel, Lançamento e Vendas de Livros, Apresentações Artísticas de Dança, Painel Interativo, Poesia Fonada, Café Literário e o Cordel no Pingo do Meio Dia, sempre às 12h. A entrada é gratuita.

O amambaiense Rogério Fernandes Lemes terá duas participações na quinta-feira (26). A primeira palestra às 15h, com o tema “Os desafios editoriais no Brasil” e, às 20h, com o tema “Literatura e Ficção”. O convite veio do Presidente da AGL, em reconhecimento pela atuação literária do poeta e escritor Rogério Fernandes Lemes em âmbito nacional e internacional, com a divulgação da Revista Criticartes e a organização de Antologias.

Aproveitando a agenda

No dia 24, às 19h, realizar-se-á no Hotel do Sesc Atalaia, em Aracaju, a implantação da Academia de Letras do Brasil/Suíça Núcleo Sergipe. Na oportunidade, Rogério Fernandes Lemes será homenageado e empossado, pelo Chancelar Ylvange Tavares, como o primeiro Presidente da ALB/Suíça Núcleo Mato Grosso do Sul.

No dia 11 de maio de 2018, às 17h, acontecem lançamentos simultâneos da II Antologia Internacional Criticartes 2018, em Campo Grande, na Casa de Serjoca (Rua Santa Teresa, 468 – Vila Rosa Pires) e, em Dourados, no Soneto Café. (Rua Camilo Hermelindo da Silva, 820 – Jardim Caramuru). São 93 poetas e escritores do Brasil, Chile, Argentina, Suíça, México e França que compõem a Antologia. Rogério Fernandes Lemes é o Organizador desta obra literária, que tem como homenageado o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade.

Currículo de Rogério Fernandes Lemes

Nasceu em Amambai, MS, no dia 13 de maio de 1976; casado com a poeta Kassia Mariano; é servidor público estadual, formado em Ciências Sociais. Publicou: “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017); e “Palavras amontoadas” (Poemas, 2018). É Membro da Academia Douradense de Letras (ADL) e Membro Correspondente da Academia Gloriense de Letras (AGL). É o atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores em Mato Grosso do Sul (UBE-MS). Idealizador e criador da Revista Criticartes e da Biblio Editora. Organizador da Antologia Criticartes (2017), da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos (2017) e da II Antologia Internacional Criticartes 2018. Idealizador da Academia Amambaiense de Letras (ACAL).


segunda-feira, 19 de março de 2018

O verdadeiro cordelista

Autoria: Rogério Fernandes Lemes

Há quem diga que o cordel
Só exista no Nordeste.
Fora desse redondel
É cópia e cabra da peste.
Que cordel é nordestino;
Só pode ser genuíno
Se for fruto do agreste.

Me vem um questionamento:
Não posso me apropriar
Deste belo ensinamento;
Dessa arte secular?
O que faz um cordelista?
Se não ser um ativista
Da cultura popular?

Porque tanto estranhamento
E egoísmo no pensar?
É por esse pensamento
Que só faz capenguear.
Mesmo longe do Nordeste
Passando pelo Sudeste,
Não paro de cordelar.

Assim como o nordestino
Eu falo do meu lugar;
Que tem rio cristalino
Onde não pode pescar.
O rio Formoso em Bonito
Reflete o céu infinito,
Que me perco só de olhar.

Que dizer de Manoel
E das coisinhas do chão?
Nós usamos o cordel
Para dar mais expressão;
Divulgar o meu Estado,
Um lugar abençoado,
Que tem Deus no coração.

Se não fosse um cordelista
Homem triste eu seria,
Ou quem sabe um repentista,
Para minha alegria.
Mas o fato é que escrevo;
O cordel é meu enlevo
Vinte e quatro horas por dia.

Certo dia eu conheci;
Já tinha ouvido falar.
Então eu não resisti
E resolvi cordelar.
Comecei quadra fazendo
Sextilha fui aprendendo,
Até a sétima chegar.

Uns diziam que besteira
O negócio de rimar.
Prefiro fazer esteira,
Pois não gosto de pensar.
Só que quando eles ouviam
Muitos deles só sorriam,
Com vontade de escutar.

Verdadeiro cordelista
Escreve aquilo que sente.
Não quer ser exclusivista
Isso o cordel não consente.
Cordel traz interações;
Aproxima regiões
E enaltece nossa gente.

Mas quem é o cordelista?
Me diga, quero saber.
Das letras é alquimista;
Não vive sem escrever.
Escreve verso com rima;
Metrifica ainda por cima,
Coisa linda de se ver.

Eu não nasci no sertão;
Não tive tal privilégio.
Mas amo de coração
E não acho um sacrilégio.
Escrever cordel eu quero;
É meu desejo sincero;
O cordel é meu colégio.

E assim sigo cordelando
Escrevendo cada verso;
Eu levo a vida cantando
No cordel eu vou imerso.
Sei que sou bom cordelista
Me sinto bem ativista,
Neste vasto universo.

Escrevi este cordel
Em forma de brincadeira;
Usei lápis e papel
Pra dizer que é besteira
Dizer que é só nordestino;
Se não for é clandestino,
Pois cordel não tem fronteira.

Cordelistas somos todos,
Do Oiapoque ao Chuí,
Deus me livre dos engodos
Que criticam por aí.
É gaúcho ou nordestino;
Homem velho ou menino;
Cordel também é daqui.

Publicado inicialmente na Revista Criticartes | 1º Trimestre de 2017 / Ano II - nº. 06

quarta-feira, 14 de março de 2018

Uma autora com o sentimento do mundo

Por Ronaldo Cagiano
Imagem: camillasantosdesigner.blogspot.com.br

Em seu novo livro “O avião invisível” (Ed. Ibis Libris, Rio, 2017), Raquel Naveira oferece ao leitor um caleidoscópio de visões e sensações estéticas sobre o mundo e seu tempo, em 78 narrativas que panoramizam sua aguda percepção crítica.
São textos que nos remetem (ou nos fazem resgatar) os tempos de ouros da crônica no Brasil, vertente em que pontificaram, desde os primórdios, mestres como Medeiros e Albuquerque, Machado de Assis e João do Rio, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos de Oliveira, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Raquel abrange ao mesmo tempo o questionador e filosófico, discutindo temas e questões presentes no nosso quotidiano, transcendendo o mero flagrante ou registro dos acontecimentos para inserir-se na categoria de uma narrativa densa e reflexiva sobre tudo que nos cerca, pois nada escapa ao seu sensível radar de arguta observadora da alma e da condição humanas.
Essa obra de Naveira realiza um meticuloso rastreamento do próprio sentido da existência, num itinerário que transita do lírico ao social, do histórico ao geográfico, da literatura à filosofia, do onírico ao mitológico, do tangível pelos olhos ao místico tateado pelo espírito. Enfim, um delicado, sofisticado e poético panorama das re(l)(a)ções da autora com o universo e com as pessoas, suas influências literárias e referências culturais, em que valores e sentimentos são visitados com ternura e expansão espiritual, num movimento de percepção sobre a vida e seus contornos.
Suas crônicas, mais que revelar o homem real e a cidade viva, o ser em transição e a história em mutação, a realidade com suas dores, delícias, sonhos, frustrações e metamorfoses, nesse tempo de tamanha dissolução, de tanta perplexidade, dissolução e paradoxos, é um convite à reflexão e ao desnudamento do humano em suas diversas projeções e representações.
Em cada crônica, Raquel deslinda, como se retirasse palimpsestos, como numa imersão em universos e ambientes desconhecidos, para aclarar outras dimensões, além da geográfica e aparente. Numa interpretação sobre a variada linguagem e os signos que habitam seu inconsciente de escritora e de humanista, vamos encontrar um percurso sobre as ideias e sobre a arte em suas diversas manifestações: do livro ao cinema, da pintura ao teatro, da História à psicologia, da literatura clássica à contemporânea, do seu Pantanal e do seu Mato Grosso à São Paulo, metrópole apressurada que adotou por alguns anos, revisita dos mitos ancestrais que nos habitam aos totens e tradições que constroem identidade e formação. Enfim, um pout pourridelineando a singela aferição de uma observadora atenta às experiências individuais e coletivas e às demandas existenciais, que sabe transformar o corriqueiro e o banal em matéria e circunstância para o refinamento literário, extrai poesia do inaudito, constituindo-se num mergulho nesse mosaico que constitui a nossa crônica diária, povoada de nuances e mistérios, iluminando tudo que aí está e poucos são capazes de captar ou reconhecer suas verdades ou enganos, seja no multifacetado das cidades e dos homens, seja no familiar, no sagrado, no profano, nos pequenos atos heroicos, seja na ação anônima ou silenciosa dos que trabalham na artesania do tecido social, e, ao mesmo tempo, no surreal, insólito e absurdo da nossa própria trajetória, muitas vezes invisível como o avião que dá título ao livro.
“O avião invisível”, como atesta Mafra Carbonieri na apresentação da obra, coloca a autora, sem dúvida e sem favor algum, na galeria dos grandes escritores brasileiros. Sua bibliografia, que contempla um amplo espectro criativo – poesia, crônica, conto, ensaio, crítica, resenhas, seminários, palestras – nada deve aos nomes bafejados pela grande mídia. Esta mídia sempre ausente, silenciosa, negligente e criminosa incensa a mediocridade e valoriza o lixo literário (com suas panelinhas, guetos, grupelhos, máfias, gangues e altares de pseudo-sumidades) em detrimento de verdadeiros escritores – como Raquel – que, com a perícia e ourivesaria dos genuínos estilistas, escrevem sobre o que é essencial e profundo, com um inegável responsabilidade estética e ética, porque sintonizada com os sentimentos e valores universais. A autora contempla em suas crônicas um amplo espectro com a mesma profundidade e senso de investigação, mesmo quando trata de temas que muitas vezes canalizam uma visão mais personalista, o faz com independência crítica, isenção e sem sectarismo, tratando de aspectos que interessam mais a uma discussão dialética que ao maniqueísmo ideológico, como nos temas da religiosidade e da política, por exemplo, fruto de sua versatilidade e do seu modo holístico e eclético de considerar ou manusear os assuntos que lhe são caros.
Essas crônicas radiografam o mundo, o tempo, as pessoas, registro afetivo para perenizar seu sentimento sobre esse mundo em que “a todo momento, tudo muda, cai ao chão, esfacela-se, apodrece, restaura-se, constrói-se, como um mapa decadente sem fim, apagando-se e redesenhando-se continuamente”, mas que só um escritor, um bom escritor como Raquel, detida no essencial e profundo, é capaz de captar e perenizar.
Ao sairmos dessas páginas, temos aquela agradável sensação e o prazer da leitura, pois como diria Mallarmé, “no fundo, o mundo é feito para acabar num belo livro”, como neste “O avião invisível”, de deliciosa viagem entre mundos e instâncias que só a boa literatura é capaz de nos levar, como nos levaram, pelas suas asas, as crônicas de Raquel Naveira.

Incoerente partilha

Michele Valverde
Dourados, MS, Brasil
@: mi-valverde@hotmail.com
Foto: carolinavilanova.com.br

Quando me apresentou o amor,
Eu lhe amei!
Seus sorrisos gratuitos
me faziam rir de volta.
Me dava comida na boca quando eu sequer sabia segurar um talher.
Também pude lhe fazer aviãozinho por não ter mais apetite.
Por tantas vezes escovou meu volumoso e embaraçado cabelo.
Eu tive mais sorte em escovar os seus, poucos e lindos fios brancos!
Passava horas me contando suas histórias,
e eu lia as que escrevo para você!
Quase tudo que me destes eu desejei lhe dar também.
Não estava em meus planos a sua última
“partilha”!
Me deste penosamente tua ausência...
E essa, não saberei lhe devolver.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Força Expedicionária Brasileira


A força das palavras
o sangue e lágrimas
a honra da alma
o silêncio é sua arma...
É o herói da batalha
que lutou pela fala
de quem lhe ataca
com a surdez da navalha
Foi soldado ferido
esperando abrigo
em meio ao vazio
morreram amigos
Sua glória é a pátria
não pedem medalhas
só mostram a áurea
do monte esquecido
Agora são poucos
mas sempre dispostos
a mostrar os seus rostos
a um novo amigo
São olhos de lince
avistam o destino
dos que buscam sem brilho
o velho caminho
a ti em homenagem
de um novo soldado
que ama a pátria
Aprendeu em seu ninho!!!

Poeta Arara Azul

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pelos olhos de Bernardo

Autoria: Rogério Fernandes Lemes*
Imagem: cdn.psychologytoday.com

Desde pequeno
sentiu no coração,
que as coisas manifestas
eram mais que aparências,
meramente evidências,
do azul na imensidão.

Desde pequeno
sentiu no coração,
e ao sentir-se natureza
compreendeu que sua essência,
na eterna transparência,
era só conexão.

Desde pequeno
sentiu no coração,
que a beleza deste mundo
era sua própria essência,
mais que mera evidência,
de uma grande explosão.

Desde pequeno
sentiu no coração,
que a poeira de uma estrela
e toda sua fluorescência,
era sua própria essência,
nesta inter-relação.

Desde pequeno
sentiu no coração,
que o mesmo ser humano
contempla e destrói as evidências,
de que somos muito mais que aparências,
no infinito universo em expansão.

____________
* O Autor nasceu em Amambai, MS no dia 13 de maio de 1976. Casado. Formado em Ciências Sociais pela UFGD. Publicou “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “Palavras amontoadas” (Poemas, 2017); e, “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017). Membro da Academia Douradense de Letras (ADL) e membro correspondente da Academia Gloriense de Letras (AGL). Atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-MS). Idealizador e criador da Revista Criticartes. Editor-chefe da Biblio Editora. Organizador da Antologia Criticartes (2017) e da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos (2017).

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A Salvação

Imagem: http://filhosdafe.blog.br

Uma coroa espinhosa
crava minha fronte
já não sei se vivo,
do cálice o tinto líquido
avermelhado escorre
por entre meus dedos,
pés e mãos se embebedam
em um mistério
que faz pulsar violento
o coração que chora
a dor de muitos
e alcançando a salvação
agita leve a minha alma
como pano ao vento
me elevando ao céu
deitando-me nos braços
do pai.

(Antônio Amaro)

Três vírgula quatro graus na escala Richter

Espetáculo teatral se apresenta em duas sessões em Dourados

Foto: Mariana Arndt
A Companhia Teatral OFIT apresenta no Teatro no Teatro Municipal de Dourados o espetáculo “Três vírgula quatro graus na escala Richter”. O texto inédito, escrito pelo dramaturgo Éder Rodrigues, especialmente para a montagem da Companhia. O 6º espetáculo da Companhia OFIT traz uma linguagem contemporânea, inspirado na estética pós-dramática e pretende fazer uma releitura de temas familiares, sem limitá-los a qualquer conflito específico. Para abordar o assunto, a direção usa a metáfora dos abalos (sísmicos) a que estamos submetidos que na montagem ganham contornos expressivos com forte apelo visual, tanto na estética proposta como para os elementos.

A realização “Três virgula quatro graus na escala Richter” é uma iniciativa da OFIT por meio do Fomento da Secretaria Estadual de Cultura e Cidadania de MS. A peça recebeu o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz em 2015 - cumpriu 04 (quatro) temporadas no Teatro Prosa em Campo Grande. Segundo o diretor, Nill Amaral, “a realização das apresentações tem um efeito positivo para a continuidade da produção que busca cada vez mais aprimorar o trabalho. Com essas apresentações, busca-se um salto de qualidade, um amadurecimento na produção e, também, a liberdade para pesquisar pontos que não seriam conquistados em poucas apresentações, uma vez que, em Mato Grosso do Sul não existe a tradição em temporadas continuadas o que dificulta ajustar pontos em uma obra com poucas apresentações”. Ainda segundo o diretor, “A receptividade do público nas temporadas anteriores, não só contabilizou em quantidade, mas crescimento em cada apresentação e a forte reação que eles têm sobre tema tratado na obra”. 

Sinopse
A senhora Madona toma uma decisão importante que irá mudar o curso das relações estabelecidas no seio familiar. Para não recuar da secular decisão, ela contrata um serviço especializado em despedidas. O que parecia simples e instantâneo, acaba revelando um jogo de representações, papéis e coisas nunca ditas que ameaçam abalar sensivelmente as tradicionais estruturas de nossas certezas. Cada passo dentro dessa casa é um pouco de nossas fragilidades e esquecimentos que desaba.
O Diretor Geral Nill Amaral

Relação entre o real e o ficcional na obra 
O espetáculo “Três virgula quatro graus na escala Richter” tem sua pesquisa centrada sobre as bases do Teatro Performativo, termo cunhado pela canadense Josette Féral. A montagem trabalha em uma zona de fronteira, entre a representação e apresentação, no limiar entre ator e personagem, explorando simultaneidades de ações, fragmentações e a não-linearidade dramatúrgica, evidentemente preservando e cultivando a criação de sentido para o espectador, por meio de uma proposta de dramaturgia complexa e inovadora de Éder Rodrigues, onde a trama aos poucos vai se revelando através do universo de relação da mãe com cada um de seus filhos e com seu marido. O texto abusa de um jogo metafórico/poético e a distância colocada na trama entre o real, o ficcional e o teatral impõe ares surrealistas ao espetáculo e, portanto, o coloca em ligação com o absurdo.

Principais obras da OFIT
Desde sua criação em 2003, a Companhia Oficina de Interpretação Teatral – OFIT tem como foco de desenvolvimento do seu trabalho a pesquisa de linguagens e vias inovadoras, como forma de tencionar e refletir sobre as inquietações e preocupações contemporâneas. A Companhia tem um trabalho contínuo em longo prazo, constrói e forma possibilidades de encontro com o público por meio de suas ações. Sua atuação na cena sul-mato-grossense engloba tanto a montagem de clássicos do teatro como a criação de dramaturgias próprias, interligadas aos anseios do grupo e aos contextos emergentes.

Dentre as suas principais produções, destacam-se: “Três vírgula quatro graus na escala Richter” (2015) de Éder Rodrigues, adaptação da “Gota d' Água” (2012) - a partir do original de Chico Buarque e Paulo Pontes; “A Serpente” (2010), de Nelson Rodrigues; “Fala comigo doce como a chuva” (2011), de Tennessee Williams “No gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos”, inspirada na obra de Clarice Lispector (2007) “Adélias” (2004), espetáculo teatral inspirado na obra de Adélia Prado e produzido com as internas do Instituto Penal Feminino Irmã Irma Zorzi. 

Paralelo ao circuito de produções, em 2013, também realizou a “1ª edição da Mostra de Teatro OFIT Cena Contemporânea”, evento que possibilitou a exibição de espetáculos nacionais com diferentes estéticas, e que fortaleceu o intercâmbio entre a cena teatral sul-mato-grossense com outras cidades brasileiras, principalmente com produções da cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, regiões apontadas como referência na produção teatral atual.

Elenco
Nádja Mitidiero, Dheime Winter, Leandro Faria, Geraldo Saldanha, Camila Schneider, Aline Calixto
Direção Geral
Fotografia
Mariana Arndt 
Serviço - Espetáculo
“Três vírgulas quatro graus na Escala Richter”
Classificação
12 anos
Local
Teatro Municipal de Dourados 
Data
01 e 02/02/2018 (quinta e sexta)
Horário
20 horas

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A janela secreta

Rogério Fernandes Lemes*
Foto: Fazenda Pacuri. Rogério Fernandes Lemes em 17 de dezembro de 2017.

Uma casa de madeira surgiu das lembranças da família de um homem simples. Depois de muitos anos, a casa onde ele nasceu e cresceu foi toda derrubada. Os pais e alguns irmãos mudaram-se para a cidade. Ele e outro irmão permaneceram na porção de terra que recebeu por herança.

Fez a casinha de madeira com as próprias mãos. Com o resto das madeiras que sobrou de sua antiga casa carregada de lembranças, de risos, de rezas e punições. Praticamente aquelas tábuas e vigas foram testemunhas de sua infância e juventude. Agora foram descartadas e se, o homem nada fizesse, certamente apodreceria ou seriam queimadas em algum fogão de lenha.

Primeiro o homem cavou quatro buracos para firmar os batentes. Depois pregou firmemente as vigas, as tábuas e assentou duas portas. Por fim, o homem afixou o telhado que era, assim como na primeira casa, tabuinhas feitas manualmente de uma madeira conhecida como ipê. Cada tabuinha foi lavrada e esculpida por seu pai. Agora seus filhos o ajudavam.

Sentado sobre a viga principal o homem pediu a cobertura. Os filhos, com os pés no chão, alcançavam as unidades e os pregos. Após várias marteladas no decorrer da manhã, lá estava ela. Pronta. Digna para servir de lar se preciso fosse.

Não havia janela. Não precisava. A casinha era tão baixinha e pequena que bastava abrir uma das portas e tudo clareava.

Por algum tempo aquela casinha serviu para guardar coisas da fazenda. Uma charrete; uma cama com lastros de couro de vaca, onde seu filho mais velho dormiu por alguns anos; duas rodas de carreta de boi; um pilão todo cheio de teias de aranha; apetrechos de montaria e toda sorte de quinquilharia que se possa imaginar.

O homem sempre dizia aos filhos: “quem guarda o que não presta sempre tem o que precisa”.

Tempo depois, uma família de conhecidos de tempos antigos veio prestar serviços ao fazendeiro. Um casal e uns quatro filhos habitaram a casinha. Todos cabiam e viviam felizes. As crianças do casal brincavam com os filhos do fazendeiro dono da terra, da casinha e, por vezes, dos sonhos dos empregados.

Depois de algum tempo aquela família foi-se embora. A casinha retornou à sua serventia primeira. Voltaram-se as rodas de carreta, o velho pilão cheio de teias, a cama de couro do filho mais velho, os apetrechos de montaria, as quinquilharias e a velha charrete.

Os filhos do fazendeiro cresceram andando de charrete. Nas tardes de domingo, a família toda ia até a vendinha, ou ao bolicho, como era conhecida nas redondezas. As crianças criam duas coisas mágicas: caramelos e refrigerantes. E para isso trabalhavam e se comportavam a semana inteira esperando, ansiosamente, sentirem o gosto do açúcar satisfazendo seus cérebros.

Os filhos cresceram, se casaram e tiveram filhos. A casinha continuava lá. Firme. Certo dia, o fazendeiro desapareceu sem nunca mais dar notícias de seu paradeiro. A esposa, os filhos e netos do fazendeiro ficaram desolados. A saudade tornou-se grande e quase insuportável.

Algumas pessoas dizem que viram o fazendeiro minutos antes de desaparecer. Contam que ele estava um pouco triste e resolveu parar de sentir tristeza. Somente ele sabia de uma janela secreta na casinha. Sem contar a ninguém, ele adentrou pela porta menor e nunca mais foi visto desde então.

A janela foi fechada e ninguém mais consegue achá-la. Mas, ela existe. A sogra do fazendeiro, alguns dias depois, achou a janela e também desapareceu.

Contemplando o interior da casinha de madeira, o filho mais velho apenas via a cama de couro, a charrete empoeirada, as duas rodas de carreta e quinquilharias pelo chão. Ele sentiu que a janela existe e que, um dia, todos serão achados por ela.

* Escritor e Vice-Presidente da UBE-MS
Membro da Academia Douradense de Letras
Palestrante da FliBonito 2017