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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Se a virtualidade é máscara, o que mascara?

Maria Teresa Marins Freire
Curitiba, PR, Brasil
@: freire.mteresa@gmail.com

Pergunto-me se as pessoas utilizam a internet para ser o que não são. Alguém pode ser o que quiser, na virtualidade. E no anonimato, forja-se o interesse, falsifica-se as palavras, promete-se no vazio. A irrealidade é comprovada. Neste anonimato vale tudo. Vale esconder a verdadeira personalidade. Encobre-se vergonha, medo, falsidade, divertimento, desconsideração, desrespeito humano. 
Mas existe convivência virtual produtiva, festiva, inteligente, eficiente, consciente, resistente? Que cultua literatura, arte, intelecto, produções e ações? Que espaço é este, afinal, que nos prepara ciladas, que nos traz mensagens alvissareiras, que nos informa realisticamente, que nos dá notícias daqueles que estão ausentes, que nos faz sonhar, que nos deixa ler poesias, prosas de distantes autores, que nos permite mimar, dialogar, amar. 
Mais alguma coisa? Cada um pode me dizer isso.
Deparo-me com várias dessas situações frequentemente. A virtualidade vira espaço de convivência diária, relatam alguns. De envio de mensagens de bom dia, boa tarde, boa noite, carinhosas, amorosas, confessam outros. Ainda envergonhados, revelam que ficam radiantes quando chegam as frases. Prontas, já criadas, repetidas, desgastadas, despropositadas, mecanizadas. Nem expressam sentimentos reais. 
A convivência virtual alcança um nível de intimidade que às vezes não se realiza na presencialidade. Cria a expectativa do contato. A ansiedade prazerosa do som que anuncia a mensagem chegando. A troca de opiniões, pensamentos, visões de vida e futuro. O câmbio de sentimentos, de carências, de companhia, de beijos e abraços sentidos, mas não realizados. A conversa à vontade transforma o contato em diálogo de companheiros, de amigos. À vontade? Talvez porque seja na virtualidade. Este ‘estar à vontade’ se repetiria na presencialidade? 
E as conversas se estendem. Adensam-se. Os galanteios se oficializam. As brincadeiras alegram a conversa. Os trocadilhos dão uma pitada de graça. A sensualidade permeia as palavras, os textos pequenos, as imagens. A vista alcança o outro na tela do computador, na telinha do celular. Onde quer que esteja. E olhares se cruzam, mediados pelos aparelhos. 
E a pergunta surge: até que ponto a virtualidade substitui o contato pessoal? Muitos diriam que isto é impossível. Outros diriam que pode ser um complemento. Eu, anteriormente diria que não é o tipo de relacionamento ideal e que o contato virtual é para conversas eventuais, para substituir o contato telefônico, mas que não é base para manter um relacionamento, porque carece do afeto real, do sentimento percebido com os cinco sentidos, da presença. 
Hoje, eu diria diferente. Aliás, eu digo que o interesse de uma pessoa por outra também pode se sustentar com a virtualidade. Serve para tornar presente o que é distante. Quando há interesse verdadeiro não importa a distância. Alguns casos reais que ouvimos, que ficamos sabendo comprovam que o distanciamento pode ser físico, mas não afetivo. É o suficiente? Não, não acredito. Eu creio que precisa haver o contato físico, o olho no olho, as mãos dadas, o aconchego dos braços ao redor, o rir junto, o passear, o conversar em torno de uma mesa, o trocar ideias porque observaram algo juntos. Que não precisa ser todo dia. Mas que tenha presencialidade. Quanto tempo? Importa? Um dia, dois ou três dias. Não é a quantidade que define a qualidade. É a intensidade. 
Na virtualidade vale tudo, dizem muitos. A palavra mansa que acaricia, que aprecia, que elogia, que encanta, que cativa. Mas, que não tem este reflexo na realidade. Pode ser falsa, para distração, para galanteios ilusórios. Pode ser a projeção de algo que gostaria que fosse, mas que não pode ser porque as circunstâncias da vida, às vezes, não permitem. Pode ser verdadeira? E como comprovar se é verdadeira, se a distância os separa? No encontro pessoal? Então eu teria razão? O tempo de contato nos diria sobre a honestidade? A conversa de pouco tempo, de muito tempo, faria diferença? Lá do outro lado cada um faz o que quer, nem precisa contar ao outro. Lá do outro lado, pode ser rei ou mendigo. 
Se a virtualidade é máscara, o que mascara? A vontade de ser aquilo que não consegue ser, de fazer algo que se sente incapaz na realidade, de dizer algo que falta coragem dizer pessoalmente, de opinar por medo da reação, de discordar porque não tem coragem de fazê-lo ao vivo, de defender o que não consegue na frente de outros, de se expor, de se arriscar na vida real? Por que é cômodo? É possível fazer o contato quando se quer, quando se pode, quando outra atividade ou pessoa mais importante não lhe requer atenção. Quando está só e precisa de alguém para companhia. Quando não tem nenhum compromisso com a pessoa do outro lado do aparelho. Não importa se ela está bem ou não. Se está feliz ou não. Também dividem situações de vida. Alguns o fazem. Alguns são sinceros. Alguns verdadeiramente se sentem atraídos pela imagem, pela conversa, pela inteligência, sensibilidade, pela atitude, pelo jeito. Demonstrados, vislumbrados, caprichados, esperados.
Então, a virtualidade surgiu para esconder o que não se quer que o outro conheça? Para esconder o que não se quer que o outro saiba? Entenda? Acompanhe? Goste? Surgiu para facilitar os relacionamentos? Para propiciar um vínculo ideal quando a realidade não o é? Para iludir? Para enganar? Por pura distração? Há alguma sinceridade neste contato virtual? Tão popular e irregular, tão atraente e insistente, às vezes permanente, nem sempre coincidente, mas por todos conivente. 
Para aproximar? Ah! Quantos encontros realizados, quantas descobertas, quantas amizades, amores... Ah! Quantos amores nascem nesta virtualidade. Ah! Quantos desencontros acontecem nesta virtualidade! Quantos desamores se dissipam nesta virtualidade!
Mas, afinal outra questão surge: vale a pena a virtualidade? E você vai responder de acordo com o que ela lhe presenteia? Ou você será analítico, racional, objetivo e prático na sua resposta? Ou você poderá responder... Como você poderá responder?

Um comentário:

  1. Muito satisfeito, mesmo que sendo a primeira vez que venho aqui, nesta tão bem elaborada revista, quero destacar a matéria sobre Ponta Porã, MS, cidade dos meus avós maternos, aonde tive o prazer de conhecer em 1966... E o segundo destaque é a crônica desta maravilhosa escritora Maria Teresa Marins Freire, a quem tenho o prazer de acompanhar os seus escritos nos sites Recanto das Letras e Elos Literários. Por falta de tempo, ainda não li todas as matérias, mas, assim que puder, retornarei. Parabéns a todos os envolvidos nesta Criticartes... Abraço e parabéns a todos!

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