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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Arrematando meus avessos

Por Sylvia Cesco
Campo Grande, MS
@: sylviacesco@hotmail.com

Minha alma é feita de rendas esgarçadas.
Mas não as troco nem as refaço:
Esse esgarçamento é o que me mantém ocupada,
Olhar atento,
Cuidando, em vigília, do meu Tempo.
Minhas veias, de finas linhas,
Não são de seda, nem algodão,
Mas não há nada que as arrebente
Ou que lhes dê nó,
Por mais que as desafiem
Incautos ou ingênuos bordadeiros,
Contumazes de dores parideiros.

Meus nervos já vêm tingidos
Por corantes naturais envelhecidos:
- Com folhas de resedá
Se lhes quero em cor laranja
Pra alegrar minhas tramas anchas. .
 Roxo é o jenipapeiro quem dá,
A camomila aos poucos os vai dourando
Pra se mostrar à flor da pele alumiando
As artérias são cerzidas em ponto de arraiolo
Que é pra adornar as ramas moleculares
Debruadas em entremeios medulares
Enroladas em discretíssimos novelos.
E assim, os teares dos meus avessos
São bem mais primorosos que os do meu lado direito:
-Estes, displicentemente descuidados,
Já não possuem sequer as urdiduras
Necessárias a toda tecelã....
Corto os fios do meu passado e meu presente
E vou tecendo somente o Amanhã.

Sylvia Cesco
SYLVIA CESCO é de Campo Grande, MS. Autora e Diretora de peças teatrais elaboradas com textos de poetas regionais. Roteirista-auxiliar do filme sobre Glauce Rocha, “Nasce uma Estrela”. Autora de letras de músicas gravadas por compositores e corais de MS. Obras: “Guavira Virou”, “Mulher do Mato”, “Sinhá Rendeira, “Ave Marias, Cheias de Raça”, “Histórias de D. Menina”. A autora foi premiada pela ASL, em Concursos de Poesias: 2º Lugar em 2012 e 1º Lugar em 2013. Publica na Revista Criticartes.

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