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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Entrevista com Viviane Mosé

Por Rogério Fernandes Lemes
Foto: Christian Gal
Criticartes: Professora Viviane Mosé sou Rogério Fernandes, o Editor-Chefe da Revista Criticartes e, em nome de nossa equipe e de nossos leitores, agradeço a gentileza por conceder esta entrevista. A senhora trata de alguns conceitos como poesia, sofrimento, violência e Nietzsche. Falaremos sobre cada um deles. Primeiramente a poesia. É possível uma definição poética sobre a poesia? Se for isso possível, poderia o ser humano tornar-se mais divinizado pela ação da poesia?

Viviane Mosé: A poesia é o exercício da síntese, não uma síntese de palavras, mas uma síntese de sentido e valor, o que significa uma busca pelo que realmente importa. Dizer palavras bonitas ou dizer um texto bonito isso não é poesia. Poesia é atingir a vida pura e bruta, sem subterfúgios, e a vida nem sempre é bela. Então é um exercício de coragem. Precisamos exercer a nossa coragem de lidar com o que é grandioso, inexplicável, como é a vida. Mas preferimos não pensar, não sentir, não saber, não ver.   A arte faz com que as pessoas consigam ter contato com a parte mais difícil da vida e também com as mais belas, porque a beleza e a alegria também nos assustam por serem grandiosas. A poesia nos tira da mediocridade.

Criticartes: Qual a relação e a importância, no seu entender, da filosofia enquanto um instrumento de elevação metafísico e suprassensível com a poesia e sua efetiva atuação na compreensão ou aceitação do sofrimento humano?

Viviane Mosé: A filosofia e a poesia, assim como a arte de modo geral, são ferramentas, instrumentos, modos de lidar com o sofrimento, com a solidão, com a condição da existência, com a finitude, com a perda, não como aceitação ou conformismo, mas como uma nova ação, ou como inovação. Diante da dor podemos nos vitimizar, ou nos conformar, mas podemos ainda nos potencializar, quer dizer, podemos ficar mais fortes. A arte potencializa o humano, torna a vida ainda melhor. É como se o sofrimento que nos derruba tanto, quando enfrentado e vivido esteticamente com consciência, com filosofia, poesia, vida, esse sofrimento pudesse tornar a vida mais intensa. É nesse sentido a frase do Nietzsche “o que não me mata, me fortalece”.

Criticartes: Como Viviane Mosé percebe e compreende a literatura brasileira em uma época com forte apelo ao politicamente correto? As manifestações populares regionais seriam forçadas a uma reconfiguração cultural para não incorrerem em crime entendido como ataque à dignidade da pessoa humana?

Viviane Mosé: O politicamente correto é uma caretice, uma besteira, uma tentativa de controle, um modo de pasteurização das ações. Não é isso viver. É preciso ter bom senso e o bom senso significa avaliar as coisas de modos diferentes considerando a pluralidade. Então, o politicamente correto gera, na verdade, polícias ou pessoas que se dizem os guardiões do meio ambiente ou da moral, enfim, o politicamente correto não dá. Um exemplo disso foi o absurdo julgamento porque passou Monteiro Lobato; por falta de considerar o contexto buscaram crucificar um dos maiores responsáveis por incentivar a leitura infantil no Brasil. Não seria melhor trazer o tema para os dias atuais e ressignifica-lo? Ou seguiremos construindo borrachas mágicas, ilusórias, para apagar nossa história?

Criticartes: O sofrimento é realmente bom? Ou seria apenas um subterfúgio requintado e poético pensar assim?

Viviane Mosé: O sofrimento não é bom nem ruim. O sofrimento é próprio da vida. O que define o sofrimento é o fato não só de nascermos e morrermos, mas de termos consciência disso. Enquanto vivemos sabemos que a vida é provisória. Essa provisoriedade nos faz construir uma cultura que quer nos vender a sensação de permanência, de estabilidade. Então, essa ilusão, essa tentativa de fingir que a vida não é o que de fato é, instável, inconstante e por isso também belíssima, mas, imprevisível e necessariamente finita, é o que mais nos faz sofrer. Mas esse sofrimento pode ser o impulso para nos fazer viver mais e melhor, é o que Nietzsche afirma: todas as ilusões para tentar nos livrar da vida só nos tornam impotente, o que só aumenta nossa dor de existir. Portanto o sofrimento não é bom nem ruim, é um fato, sendo um fato deve ser encarado de frente.

Criticartes: Sua compreensão diante de um problema difere, obviamente, do grande público adepto do culto à dor. Ao questionar o sofrimento sobre quais benefícios trará para sua vida, vida esta compreendida como um kit complexo e que torna, cada um de nós, como portadores do infinito, eu pergunto: o que falta para que as pessoas compreendam isso e transformem em senso comum para que sofram um pouco menos?

Viviane Mosé: Você pergunta o que falta para as pessoas perceberem que o sofrimento pode ser importante para as suas vidas? É só elas olharem para suas vidas como ela está agora que elas lutam tanto contra o sofrimento. Então, as pessoas que mais lutam contra o sofrimento são as pessoas que mais sofrem e, para perceber isso, é só fazer uma leitura diária do seu cotidiano e perceber que ter curtidas nas redes sociais, ter roupas, ter objetos ou fazer viagens não faz ninguém viver bem. Viver bem é um processo interno de habitar o próprio corpo e viver o presente, o instante, a vida como ela é.

Criticartes: A senhora concorda que a solidão é a maior tragédia humana? E os poetas? Seriam dotados de poderes capazes de ajudar as pessoas na superação e no enfrentamento de seus medos?

Viviane Mosé: Quanto à solidão eu penso exatamente o contrário, a solidão é espaço de fortalecimento, de reagrupamento das forças; é da solidão que nasce a poesia, tão cara, tão importante, tão valorosa. Então na verdade a poesia, para mim, é um instante poético; é o momento em que eu me sinto vivendo o presente. Neste momento, que é extremamente agradável, as palavras ficam abraçadas umas às outras como se todos os sentidos me abordassem e eu pudesse brincar com tudo aquilo. A minha busca é por um instante poético e é, esse instante, que me dá essa leveza com as palavras, essa fluidez. O que me leva a um instante poético é um processo de livramento, o momento em que eu me livro do que não importa, do que eu acho que importa, mas não importa; do que eu carrego como subterfúgio, porque faz parte do processo ter subterfúgios, mas, neste momento eu me livro desses subterfúgios e me encontro, de fato, com o que eu chamo da vida pura e bruta. E isso é muito agradável para mim porque  daí nasce a poesia. Eu só posso encontrar isso vivendo a solidão, então solidão, para mim, é uma alegria. Atualmente eu fico contando os minutos para ficar sozinha, e amo ficar sozinha e imagino que vou ficar feliz velha vivendo a solidão. Velhice que já está chegando para mim. Como enfrentar a solidão? Não há o que enfrentar na solidão. O que há para enfrentar é a condição da existência. Essa condição é dura e feliz porque se eu nasci e vou morrer, se minha vida é um intervalo entre uma coisa e outra é preciso valorizar cada minuto desse tempo. Ele é único. O porquê eu estou aqui? Para onde eu vou? Provavelmente eu não vou descobrir, mas será que importa descobrir? Talvez importe mais viver. Eu vou viver essa vida que me foi dada com dignidade em cada minuto, tanto na alegria quanto no sofrimento, porque isso é temporário, não é? Então eu quero viver o que eu tenho para viver. E se essa é uma postura, as coisas se encaixam melhor, o desencaixe talvez seja muito mais produtor de sofrimento do que o que a gente atribui para o sofrimento.

Criticartes: Em um de seus poemas há uma receita para “limpar” palavras sujas. E para as palavras violentas como ódio, crueldade, desprezo, indiferença e soberba? Existe uma receita para nos protegermos delas?

Viviane Mosé: Quando você diz que palavras como ódio, crueldade, desespero, indiferença e soberba são violentas, você está sujando essas palavras. As palavras são molduras vazadas, o sentido é sempre móvel. Então eu vou te dar um exemplo: a palavra amor, talvez você a considere uma bela palavra. Mas não. Eu, por exemplo, posso dizer para o meu filho “eu estou fazendo isso por amor”. Mas, na verdade, o que eu estou dizendo com ‘amor’ pode ser visto por ele como crueldade. Então, qual é a melhor palavra? A palavra amor é uma palavra melhor? Não. A palavra amor não diz nada. O que diz é o acordo estabelecido entre quem fala e quem ouve naquele determinado momento. Então não tem palavra violenta, não tem palavra feia, não tem palavra torta só tem palavra suja, palavra suja é quando ela está impregnada de sentido. A gente tem que reagrupar o poder de leveza das palavras para elas poderem voltar a comunicar.

Criticartes: Como a senhora percebe a influência de Nietzsche no pensamento poético pós-moderno? Existe essa influência?

Viviane Mosé: Nietzsche é um dos autores mais lidos no contemporâneo, mais citados em rede social. Ele é bastante marcante entre jovens, entre adultos e velhos, enfim, e o porquê disso? A base do pensamento de Nietzsche é uma leitura da história da civilização. Ele começa com os gregos e chega até o contemporâneo. Na verdade, ele chega até o final do século XIX quando enlouqueceu e parou de escrever, mas a base da análise do Nietzsche é que a civilização estava se movendo por valores ilusórios. É como se a civilização quisesse acabar com o sofrimento ou mudar o rumo da natureza, e isso é impossível. Então, a história da civilização, para Nietzsche, é uma contra natureza; luta contra a natureza, mas a natureza é muito maior do que o homem e do que a cultura humana e, em algum momento, esse choque vai fazer com que as estruturas do Ocidente se desfaçam em uma crise de valores, em uma mudança, inclusive da natureza.  Nietzsche previu esse processo não tanto ambiental, porque não é a questão dele, ele fala muito da exaustão de um modelo de cultura que é baseado na exploração da natureza. Isso sem dúvida nenhuma. Ele acha que esse modelo vai se exaurir não por uma questão ambiental, mas por uma questão civilizatória. O homem não consegue controlar a vida e essa falta de controle vai cada vez mais aparecer e desfazer a base do pensamento ocidental. Então é como se ele tivesse dizendo que nós estamos apontando para um outro momento da cultura, que é refazer o conceito de ser humano e de vida; o homem parar de lutar contra a vida e dar as mãos a ela. É nesse sentido que eu valorizo o sofrimento. Não chamar o sofrimento para si ou querer o sofrimento, mas compor com o sofrimento, potencializando a vida e produzindo arte a partir daí, quer dizer,  potencializar a vida a partir do sofrimento e não tentar acabar com o sofrimento, por exemplo, comprando e usando medicação psiquiátrica. É nesse sentido que o Nietzsche coloca a questão do sofrimento.

Criticartes: A Revista Criticartes foi pensada como ponto de encontro entre autores e leitores oferecendo, gratuitamente, conteúdo de qualidade para o fortalecimento da leitura. Ler mais para ser um “portador do infinito”. Acredita-se que esse objetivo é alcançado em cada edição. Qual a sua mensagem de incentivo aos novos poetas e escritores brasileiros que acompanham seu trabalho?

Viviane Mosé: Claro que uma revista que traga literatura, que fale de literatura é importante, sem dúvida nenhuma. É um espaço de troca acessível a todo mundo pela internet, enfim, é superimportante. A leitura é valiosa como exercício de interiorização, de pensamento, de reflexão, de coragem e de solidão. A leitura é uma excelente parceria para a solidão, assim como a música, assim como o cinema e a pintura. Minha mensagem de incentivo aos escritores: escrevam. Escrevam sempre. Leiam, escrevam, se manifestem. A poesia é um bálsamo, um presente para quem tem sensibilidade para senti-la mesmo que não escreva, e, para quem escreve, ainda mais.

Criticartes: Em nome da Revista Criticartes, de seus autores colaboradores e leitores no Brasil e em onze países, agradeço por sua atenção e gentileza em conceder-me esta importante entrevista. Sinta-se à vontade para suas considerações finais.

Viviane Mosé: Quero agradecer o espaço dessa entrevista e espero que essas questões sejam cada vez mais discutidas, especialmente entre escritores e leitores de poesia.

OBRAS DE VIVIANE MOSÉ
Poesia
Toda Palavra, (2008)
Pensamento chão, (2007)
Desato, (2006)
Receita para lavar palavra suja, (2004)
Escritos, (1990)
Imagem Escrita, (1999);
7 + 1, Francisco Alves (1997).
Filosofia e Psicanalise
A Escola e os Desafios Contemporâneos, (2013)
O Homem que Sabe, (2011)
A Resistência Tapuia na Capitania do Espírito Santo? (2009)
Nietzsche e a grande política da linguagem, (2005)
Beleza, feiúra e psicanálise, (2004)
Stela do Patrocínio - Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, (2002)
Assim Falou Nietzsche, (1999)
Imagem: Divulgação da Autora.

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